A moça do piano

iG Minas Gerais |

Veio de São Paulo passar uns dias com o pai, que, apesar da lucidez, já não gozava de boa saúde. Preocupava-o sua solidão, mas o velho insistia em permanecer ali, na casa em que, durante 56 anos, vivera com a falecida esposa. São Paulo talvez não fosse a melhor opção, pensa o filho, apreensivo, perante a insistência do outro: “Se for para morrer, que seja aqui”, repetia o pai com a voz serena, porém decidida. Entra no seu quarto, o de sempre, desde quando era menino. Abre as janelas e sente com saudades os cheiros de sua infância. Até hoje, a dama-da-noite... Com o coração arrebatado, retorna ao passado. A velha casa no fim da rua, com quintal e goiabeiras, de onde se podia ainda ouvir um galo cantar. Era como se ali o tempo nunca tivesse existido. As casas, os sobrados... As árvores antigas, o calçadão de pedras, samambaias nas varandas... O velho tinha razão, era um privilegiado e seria um castigo levá-lo para longe. De sua janela, além do sereno da noite, entra uma canção. Que música era aquela, tão linda, tão sublime? Curioso, aventura-se para fora e sente que aquela melodia, surgida do nada, tem o dom de o absorvê-lo. Fascinado, permanece em vigília vivendo um momento único. Depois, o silêncio. Fecha a janela e sai à procura do pai. Quer saber da música, nunca ouvira nada tão bonito. E o pai, sorrindo, pela primeira vez lhe conta da moça, a nova vizinha. Linda! Feito uma pintura de Renoir, branca feito uma nuvem, com os cabelos castanhos a lhe caírem nos ombros. Professora de música, conheceu-a no dia seguinte à sua mudança. Trouxe nas mãos uma torta de maçã, regalando-o ao se apresentar. O velho, ao abrir a porta, imagina que a mente cansada o tenha transportado ao passado, quando, ainda jovem, se enamorara de uma moçoila bonita feito ela, a vizinha. Ao entrar, ela se sentou à mesa e contou sua história. Viera do interior, e ele acreditando cada vez mais que viera do passado, do mais remoto recôndito de sua mente. Extasiado diante de seu olhar sereno, o velho a escuta, alegra-se. Deus lhe mandara um anjo para preencher suas tardes de música. Diz a ela de seus gostos, adora Chopin. E ela lhe promete que, ao menos uma vez no dia, tocará no piano a sua música preferida. E, assim, as tardes do velho nunca mais foram as mesmas. O filho quer saber detalhes; mas o pai, cansado, deixa para depois. É tarde e os dois se recolhem nos seus silêncios. Recordando-se da última canção, acabam por adormecer. No dia seguinte, pelas frestas da janela, penetram suaves acordes. Despertam curiosidade, mas, acima de tudo, emoções adormecidas. Quem será ela cujas mãos são capazes de tamanha magia? Será mesmo assim tão linda? Um quadro de Renoir, como disse o pai, uma personagem etérea que não se sabe bem por que se materializou ali... Para o seu deleite... “Vinda provavelmente de outra época”, pensa. E, sorrindo, completa: “Acho que agora sou eu quem está ficando louco”. Decide esperá-la no portão, ao menos para satisfazer a curiosidade e tirar da cabeça suas doidices. As do pai, tudo bem, eram compreensíveis, mas as dele? O que o levara a pensar que a moça do piano não era mesmo desse mundo? Esperou toda a manhã, e ela se manteve trancada. E, durante a tarde, também a esperou... Nada! Somente se fazia presente por meio de sua música. É noite. E ele, mais uma vez, abre a janela aguardando os acordes. Às vezes tristes, ora vibrantes, como se estivessem a questionar o mundo, fortes, densos, em forma de grito. Depois... a calmaria. E voltava tudo como antes. Deixava-se levar então pela fluidez da melodia, a mesma da primeira noite. E, como nos livros de Neruda, voavam seus pensamentos. Pensa nela, na moça do piano. Imagina-a de branco. Uma camisola de rendas, afinal, era tão irreal, tão imaculadamente pura que ele nem sequer a imaginava nua. Somente rendas, transparentes, deixando à mostra o colo pálido, a elevação dos seios, de onde despontavam, tímidos, róseos mamilos. Casta, linda, mulher e menina! Deseja sentir sua pele, descobrir seus segredos, sua natural fragrância, despertar desejos. Tocá-la por inteiro, sem pressa, extasiando-se como o astrônomo ao catalogar uma nova estrela. Desfazer seus cabelos, ora caídos nos ombros, até se perder no brilho de seus olhos. Quisera ele se sentar na sua sala para escutá-la em seu sarau particular, dizer-lhe que a força de sua música diz mais que mil palavras. Por ela invoca seus sonhos, fantasiosos e intransitáveis. Tão infeliz seria sem seus devaneios, desejos incontidos e imaginosos caprichos. E, na ilusão dos pensamentos, com ela deseja estar. É tarde, se finda a canção. Fecham-se as janelas. Pensa no merecido descanso das mãos que produzem mágicas. As luzes se apagam e, no silêncio dos seus quartos, pai e filho, duas gerações, mais uma vez pensam nela, na moça do piano.

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