Bate debate 01/11/2013

iG Minas Gerais |

Saudosismo  Luísa Barbosa Pereira Cientista Social Nesta semana tive o prazer de realizar uma pequena viagem com um autêntico taxista contagens e, Seu Elias. Foi uma ótima oportunidade de saber um pouco mais da cidade que escolhi para morar. Preocupo-me com tudo o que é “vivo”. Interesso-me ainda mais por aqueles ou aquilo, que como a memória, luta para sobreviver. Seu Elias contou sobre a história do meu bairro: Fonte Grande. Disse que a origem do nome vem de um enorme tanque situado na rotatória da Gentil Diniz. Os tanques eram comuns na cidade que, pelo menos até a década de 1970 quando foi inaugurada a Várzea das Flores, sofria com a grande escassez de água encanada. Daí a expressão “biqueiro” para os políticos que inauguravam fontes e bicas em comunidades carentes.  O antigo Fórum, por ironia do destino, era um pasto de touradas, rodeios, e festejos ligados à vocação agropecuária da região. Eram nesses eventos e nas celebrações da Igreja que os homens se apresentavam às moças, montados em cavalos, no autêntico estilo dos contos de fada, que pouco se assemelhavam a realidade local.   Bem próxima ficava a Estação Ferroviária, inaugurada em 1918, que unia a região a Belo Horizonte no ramal Bernardo Monteiro-Contagem. O “trem subúrbio” como se convencionou chamar, era o principal meio de transporte da região e fundamental para o abastecimento de produtos agropecuários ao Mercado Central de BH e deslocamento de passageiros. O ramal foi desativado em 1963 num período em que o trânsito intenso que existe hoje, de ligação entre estas cidades, ainda era um “sonho” do desenvolvimento.    Contou também que na escadaria da Matriz existiam dois belos casarões antigos, que compunham o conjunto arquitetônico formado pelas duas casas coloniais (a amarelo e a rosa) do século XIX e o casarão eclético (azul), construído em 1936. Estes últimos três ainda estão de pé, para que não nos esqueçamos da história.    O local onde funcionam o Clube Yucca, o Carrefour e o aterro sanitário eram grandes fazendas. A cidade tranquila, sem carretas e as relações de compra e venda se davam na base da confiança e da caderneta. Dentre as muitas histórias embaladas pelo movimento curto do taxi, preso num engarrafamento na João Cesar, a que mais gostei foi a das jabuticabas. Seu Elias contou que era só cair uma boa chuva na região que pessoas de BH vinham à cidade alugar um pé de jabuticaba. Famílias inteiras rateavam entre si o valor estipulado pelo proprietário da jabuticabeira e passavam todo o dia aproveitando a calmaria da região e chupando a jabuticaba doce do solo Contagense.   No final do trajeto pergunto ao meu professor do que ele mais sente falta da Contagem do passado. Depois de toda aula que me tinha sido dada, esperava que ele falasse do canto dos pássaros, da tranquilidade, ausência de carros e prédios, mas Seu Elias, no auge de sua sabedoria, disse que sentia falta mesmo da sua infância, do seu tempo de menino, por que de resto a vida naquela época era muito sofrida. Muito mais difícil que hoje.    Eu, que gosto de saber sobre a história do chão que piso e aprender com os que nele pisam a mais tempo, confessei meio envergonhada, que mesmo não tendo conhecido essa Contagem original, sentia mesmo saudade das jabuticabas.

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