Restaurante na cozinha de casa

Cardápio personalizado e tranquilidade para receber convidados é um dos atrativos para contratar profissionais, que trabalham em casa como no restaurante. Serviço cresce e conquista adeptos em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

JOÃO GODINHO
Isabel Bandeira se divide entre a sala de aula e as cozinhas dos clientes
Quem gosta de receber os amigos em casa para almoços e jantares sabe o quanto é trabalhoso organizar estes eventos em ambiente doméstico. Muitas vezes, a dor de cabeça de planejar, encarar as compras e o próprio fogão, na preparação dos pratos, supera em muito o prazer de estar com gente querida em torno da mesa. Nestes casos, o aconchego e o encanto de casa são substituídos pela praticidade e impessoalidade do restaurante. Para aliar as duas coisas, cada vez mais chefs prestam o serviço de preparar alta gastronomia em domicílio. O nome pomposo, “personal chef”, pode enganar quem não está familiarizado. Não se trata de manter um cozinheiro à disposição, mas sim ter um chef de restaurante cozinhando exclusivamente para a ocasião, por algumas horas. E o melhor: ter a cozinha transformada em um ambiente profissional, com comida sofisticada como a de um bom restaurante, sem ter a preocupação de organizar. Tudo é incumbência deles – desde as compras, a definição do cardápio, a cozinha, até a louça. O serviço tem se valorizado na capital e ganhado muito adeptos. Para Isabel Bandeira, que já passou por cozinhas profissionais como a do Glouton e hoje se dedica à sala de aula e ao ofício de personal chef, a alta demanda pelos cozinheiros em domicílio é um reflexo do jeito do mineiro. “As pessoas gostam muito de receber gente, e hoje a cozinha deixou de ser um ambiente de serviço e se tornou social. Em casa, você tem muito mais liberdade, sem contar que pode escolher o que vai servir”, diz ela. Para a chef Júlia Martins, que se dedica à função desde 2006, não só a procura pelo serviço aumentou, mas também a exigência da clientela. “Hoje, as pessoas estão muito mais sofisticadas, houve uma mudança no comportamento em relação à comida. Dão muito mais importância a ela e o serviço também tem que ser impecável. Tudo não menos do que perfeito”, afirma. Chef do recém-inaugurado restaurante CMYK, Cláudio Cavalcanti mantém uma empresa que oferece o serviço de chefs e bartenders em domicílio, a Fragus. Ele explica que, em geral, se prepara um menu fechado de três tempos, com entrada, prato principal e sobremesa, mas que quando a ocasião pede, pode-se organizar um menu degustação com até 10 pratos. “A ideia é cuidarmos de todos os passos para que o cliente não tenha trabalho e fique à disposição dos convidados”, diz ele. Primeiro, o chef faz uma reunião com o cliente para definir o cardápio, que é construído em conjunto, de maneira personalizada. A partir disso, as compras são feitas, as louças organizadas. “Chegamos à casa do cliente com tudo quase pronto, para ser finalizado na hora de servir. Fazemos registros fotográficos da cozinha para que, no final do evento, ela seja devolvida do mesmo jeito, se não melhor”, afirma Cláudio. O ideal, para a personal chef Mika Costa, é atender até 20 pessoas, cujo o preço varia entre R$ 80 e R$ 150 por pessoa, dependendo do menu. Já para grupos maiores, é preciso pelo menos uma ajudante e um serviço de garçom, que ela também oferece, quando solicitado pelos clientes. “Quanto menos pessoas presentes no jantar, mais caro fica o serviço por pessoa, porque o tempo que se gasta e o trabalho são praticamente os mesmos”, ela explica. Sob pressão. Se no começo da carreira a chef Júlia Martins sonhava com um restaurante próprio, hoje ela descarta de pronto a ideia. “Hoje, como personal, ganho mais e ainda tenho liberdade. Não é fixo, tem meses que trabalho mais e outros menos, mas ainda assim é melhor. Encarar o trabalho de uma cozinha de restaurante é punk, o dia inteiro trabalhando sob uma pressão alucinante. A rotina é muito pesada”, afirma ela. Isabel Bandeira afirma que, talvez por isso, mais mulheres ofereçam o serviço de personal. “Também existe um certo preconceito contra as mulheres nas cozinhas de restaurante. Mas o trabalho em casa é realmente mais tranquilo. Existem, claro, problemas. O maior é a pressão para que tudo saia perfeito porque, ali, tudo o que acontecer é de sua responsabilidade”, diz a chef. Trabalhar em uma cozinha diferente a cada dia acaba gerando muitos imprevistos nas rotinas dos personal chefs. Não conhecer intimamente os equipamentos dos clientes e não saber o que há disponível para o serviço é fonte de problema permanente. Por isso, é preciso ter jogo de cintura, manter a calma e saber improvisar quando é preciso. A chef Júlia Martins tem várias histórias de imprevistos em casas de clientes. Para evitar que aconteçam com mais frequência, ela tem um check list em que marca exatamente o que vai precisar para que o almoço ou o jantar aconteçam sem maiores surpresas. Ainda assim, acontecem. “Uma vez, fui preparar o jantar na casa de um cliente e o fogão não funcionava. O menu era baseado quase inteiro no forno, e ele se recusou a esquentar. Bateu o desespero, mas aí mandei buscar um forno na minha casa na hora. Atrasou um pouco, e o cliente entendeu o porquê, mas tento evitar ao máximo que isso aconteça”, diz. Também por isso, a chef Isabel Bandeira faz questão de conhecer a cozinha com antecedência, para saber com o que vai lidar. “Não é legal ser pega de surpresa. Hoje, as cozinhas estão cada vez mais equipadas, mas não dá para exigir um ambiente profissional, pronto para um chef atuar”, afirma.

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