Dois terços dos moradores de favelas são da classe média

Potencial de consumo da população dos aglomerados é maior que o PIB da Bolívia toda

iG Minas Gerais | Jáder Rezende |

Há um ano a diarista Gisele Santos Silva, 32, resolveu realizar desejos até então longe de sua realidade. Moradora da favela Morro Alto, na região Norte de Belo Horizonte, vizinha à Cidade Administrativa, comprou um computador, um home theater e dois celulares, um para ela e outro para a filha de 11 anos. Tudo parcelado em 12 vezes no cartão de crédito. Paralelamente, segue com a construção de sua moradia, de três cômodos. Chefe de família, Gisele conta com equipamentos modernos, serviço de internet rápida, mas não tem descarga no banheiro. “Tudo o que tenho é fruto do meu suor. A redução de impostos para esses equipamentos que hoje tenho ajudou bastante. Agora quero terminar minha casa, construir mais dois quartos”, diz. Gisele Silva traduz a pesquisa inédita do Instituto Data Favela, que retrata a realidade dos moradores de aglomerados dos grandes centros urbanos. O estudo revela que mais da metade tem acesso a internet e dois terços são de classe média, mas ainda se ressentem de serviços básicos, principalmente saneamento, saúde e segurança. Classe média, segundo o critério adotado pelo instituto, é quem tem renda per capita entre R$ 320 e R$ 1.120 mensais. O acesso a contas bancárias também aumentou consideravelmente. Segundo o levantamento, entre os 4,3 milhões que são bancarizados nas favelas, 3,3 milhões possuem conta corrente, enquanto 3 milhões possuem (às vezes ao mesmo tempo) conta poupança, e 35% têm cartão de crédito, sendo que destes, 55% afirmam já ter emprestado o cartão para algum amigo ou familiar da comunidade. Gisele Silva tem dois cartões e confessa que já empresou mais de uma vez para amigos. O baixo número de bancos dentro das favelas leva a maioria (57%) a sair da comunidade para pagar as contas, e somente 18% se valem da modalidade internet banking. Gisele, que ainda não usa direito o computador, lamenta o fato de ter de ir ao centro de Belo Horizonte ou a Vespasiano para saldar suas dívidas. O estudo revela que, nessas comunidades, 62% sentem dificuldade para pagar as contas. O fundador da Central Única das Favelas (Cufa), Celso Athayde, considera que a pesquisa deve estimular a abertura de agências. “Algumas favelas do país já possuem bancos, mas a falta de garantia de segurança faz com que a maioria dessas instituições não ofereça agências dentro das comunidades. Um dos nossos objetivos é sentar com os bancos e mostrar que as favelas brasileiras têm grande potencial de consumo”, disse.

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