O dia em que SP parou

iG Minas Gerais |

Hélvio
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São Paulo parou. A maior e mais rica cidade do país, que tem a fama de não parar nunca, parou. De pânico, de medo, de susto. Os ataques perpetrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), iniciados na sexta-feira, não foram nada perto da onda de boatos que tomou contou da cidade na segunda-feira. A maior violência sofrida pelos paulistanos não foi real, mas psicológica. Cheguei em São Paulo no sábado pela manhã, quando os mais violentos ataques já haviam acontecido. E tudo parecia normal. Mesmo com novos atentados, o domingo também foi tranquilo, apesar de uma certa apreensão. A segunda-feira começou com novos ataques, agora não apenas contra ônibus, mas também contra agências bancárias e fóruns. Ainda assim, a guerra parecia acontecer longe de onde eu estava. Mas foi só entrar num táxi para perceber a apreensão do motorista. “Hoje comecei a trabalhar às 5h da manhã e tive a sensação de estar sozinho no mundo. Não tinha uma alma na rua”, disse o senhor. “Só fiz viagem pra gente que não podia faltar no serviço, gente que só toma táxi quando não tem ônibus”. Na despedida, ele ainda mandou um “fica com Deus, só ele mesmo para nos guardar porque a polícia...” Desci do carro pensando que tínhamos que seguir nossa vida, que não podíamos parar diante de situações como essa. Lembrei dos recentes atentados de Londres e Madrid em que as pessoas não paralisaram diante de uma violência muito maior. E tive a certeza, andando na rua, que as pessoas estavam pensando exatamente como eu. Essa sensação durou pouco e, por incrível que pareça, desapareceu por completo quando cheguei ao apartamento da minha irmã e comecei a ver a cobertura da crise pela TV. O telefone toca. Era meu cunhado, dizendo que tinha ouvido falar de um atentado numa estação do metrô, perto dalí. Na Globo, noticiavam que uma ameaça de bomba fez os bombeiros fecharem o aeroporto de Congonhas e de que outros ônibus haviam sido incendiados. Meu cunhado liga de novo para dizer que a USP, onde ele trabalha, havia dispensado alunos e funcionários. Ligo para o aeroporto e sou informada que ele estava temporariamente fechado e que a Infraero pedia para que as pessoas não fossem até lá. Na TV, cenas do comércio de várias regiões com as portas fechadas. Surgem boatos de toque de recolher. Minha irmã resolve buscar minha sobrinha na escola. No trajeto, já era possível sentir o caos instalado. Pessoas andando a pé apressadamente. Carros enlouquecidos passando sinal vermelho e o medo estampado no rosto de todo mundo. Na Globo, as autoridades policiais, em contraste, diziam que estava tudo sob controle, que não havia motivo para pânico. Às cinco da tarde, fico sabendo que o aeroporto havia sido liberado. O problema agora era outro. A cidade registrava neste horário um congestionamento recorde de 195 km e era impossível encontrar um táxi. Transfiro meu voo para a manhã do dia seguinte, com a esperança de que tudo estaria normalizado. E estava. No aeroporto, compro os jornais. Leio um artigo, intitulado “Pânico no Galinheiro”, na “Folha de S.Paulo”, que falava sobre a cidade ter “se curvado à delinquência comum”. O texto ressaltava a coragem dos londrinos que não se deixaram abater durante os bombardeios nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto que o paulistano preferiu se trancar em casa. Fico injuriada com a falta de sensibilidade do autor em não sacar que os londrinos, orgulhosos da sua história, eram ainda comandados por um homem da estatura de um Winston Churchill. E nós, paulistas, que temos “Cláudio Lembo e a certeza que não podemos confiar em nossos políticos, a certeza de que estamos sozinhos no meio de uma crise sem precedentes e da qual não sairemos tão facilmente. Quem poderá nos salvar?” Texto originalmente publicado no dia 17.5.2006, e que se coaduna aos fatos ocorridos nestes dias na capital paulista.

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