Um aprendiz sertanejo

Ronaldo Fraga apresenta amanhã na São Paulo Fashion Week desfile em que pesquisou cultura do couro no sertão

iG Minas Gerais | Silvana Mascagna |

FLÁVIA CANAVARRO/DIVULGAÇÃO
Ronaldo Fraga se inspirou em Graciliano Ramos, João Cabral, Gilberto Freire e Ariano Suassuna
Os livros em cima da mesa não deixam dúvidas: Ronaldo Fraga vai falar do sertão em sua mais nova empreitada. Não mais o sertão de Guimarães Rosa, como fez com a “Cobra: Ri”, de 2006, mas aquele que cobre uma boa parte do nosso território e que foi tão bem escrutado por nomes como Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto, Gilberto Freire e Ariano Suassuna. Foram eles os seus guias em “Carne Seca ou Um Turista Aprendiz em Terra Áspera”, desfile que apresenta, amanhã, às 16h30, na São Paulo Fashion Week. Porque Ronaldo Fraga se sente um eterno aprendiz e não se furta a recorrer aos mestres para buscar, mais do que inspiração, conhecimento. É, é roupa o que afinal sempre resulta das pesquisas desse artista mineiro, mas uma roupa cheia de significado, impregnada de cultura, cultura brasileira. “A literatura entra de mãos dadas nessa jornada”, diz Ronaldo, depois de se embrenhar na pesquisa da cultura do couro no primeiro semestre deste ano, quando foi convidado pelo Centro das Indústrias de Curtume do Brasil (CICB), a desenvolver um projeto de criação de produtos com a matéria-prima. “A ideia do projeto Design na Pele era dar ao couro um valor agregado, já que o Brasil é o maior exportador de couro e nossos produtos são todos copiados da Itália”, afirma Ronaldo. Assim, lá foi ele conhecer curtumes no Rio Grande do Sul, São Paulo, Petrolina/Juazeiro e Vale do Cariri (Ceará) para, primeiro entender como se dá aquela cultura, e depois, emprestar sua criatividade na criação de novos produtos. Não é preciso dizer que essa temporada, principalmente a que passou nos curtumes do Nordeste, encheram sua cabeça de ideias, não apenas as que desenvolveu para o projeto em si, mas as que ele só viria a criar depois, guiado pelos mestres literários, e que fariam parte da nova coleção. “É a primeira vez que uma coleção minha tem alma masculina”, revela. O sertão, descobriu Ronaldo, é muito masculino – “até Raquel de Queirós é masculina, áspera”. Ele lembra que Graciliano tinha aversão a reticências (“melhor dizer do que deixar em suspenso”) e a exclamações (“não sou idiota para viver me espantando”), uma forma de nos dizer por onde vai a nova coleção. Assim, Ronaldo nos conta, que o universo gráfico do sertão – a terra rachada, o urubu, o sol a pino, as janelas em meio a terras caiadas, os cactos – estava pronto, bastava que se transportasse para os tecidos. As formas, secas embaixo, e cheias de volumes em cima, como as vestes dos cangaceiros, foram apropriadas e ganharão os corpos das modelos. Os sapatos são também uma lembrança aos temidos e célebres bandoleiros, primeiro na forma, quadrados (“assim, eles confundiam suas pegadas para a policia”) e, depois, por estamparem a figura de Lampião e Maria Bonita no solado. Os óculos serão de cortiça. E os tons terrosos, laranjas avermelhados, vermelhos alaranjados, amarelo e azul, tão característicos do sertão, estarão lá colorindo as roupas. Os tecidos são diversos, mas principalmente couro, claro, mas um couro nunca visto, com novas texturas – inclusive uma que deixa em evidência os vincos, que antes de Ronaldo Fraga eram vistos como “defeitos” pelos homens do curtume – e novas estampas, como uma que imita a pele do surubim. Tudo obra da cabecinha de Ronaldo Fraga. O sertão é muito mais o que mostra à primeira vista, acredita o estilista, depois de sua vasta pesquisa. “Ele é cheio de nuances, superfícies e personagens. O sertão tem muitas facetas”. Por isso, Ronaldo acredita ter feito cinco coleções em uma. “Eu que vinha, nas últimas coleções, exercitando o falar com precisão, agora abri tudo”, diverte-se.

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