‘Ter opinião nunca foi tão arriscado’, afirma estilista

iG Minas Gerais | Silvana Mascagna |

FLAVIA CANAVARRO
Um dos croquis criados por Ronaldo Fraga para a sua nova coleção
Antes que as pessoas torçam o nariz para o que ele vai apresentar na São Paulo Fashion Week, amanhã, Ronaldo Fraga afirma que descobriu que o procedimento nos curtumes é altamente sustentável. “Os curtumes recebem a água e a devolvem dez vezes mais limpas, minimizando o impacto ambiental”, diz ele, sobre o trabalho que desenvolveu, ao lado da artista plástica Heloísa Crocco, para o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) e que acabou inspirando sua nova coleção, a ser apresentada amanhã, no evento da capital paulista. O alerta de Ronaldo Fraga faz sentido. Mostrar peças em couro na nova coleção pode ser a polêmica da temporada, como foi em janeiro quando colocou na passarela modelos com bombril na cabeça. Ele foi acusado de racista. Ronaldo diz ter ficado surpreso, afinal o desfile era justamente sobre o racismo que respinga até hoje. “Ter opinião nunca foi tão arriscado. Mas sem opinião, sem risco, prefiro nem existir”, afirma. Ele acredita que a polêmica em torno das modelos usando palha de aço nos cabelos mostra, mais do que tudo, um preconceito em relação à moda. “Se aquilo tivesse acontecido no cinema ou numa galeria de arte, não teria repercussão nenhuma, mas como foi na passarela, criou-se aquele burburinho. Isso mostra que ainda não vemos a moda como um dos vetores da cultura. A moda tem que se libertar da roupa. Temos que usá-la para pensar, para escrever, contar uma história”. É por pensar assim que, seja nas suas coleções ou no trabalho que desenvolve em várias partes do país, como o que realizou para o CICB, está lá a sua preocupação de fazer da moda um vetor cultural. No projeto Design na Pele, coube a Ronaldo criar roupas e acessórios e a Heloísa objetos de arte e decoração, depois de visitarem 13 curtumes em várias partes do país. A intenção, segundo o site do CICB, era ampliar a forma de olhar para o couro, servindo como ponto de partida para a integração entre a excelência técnica e a diversidade criativa. O trabalho gerou um livro e um filme, que foram lançados ontem em São Paulo. No filme do projeto Design na Pele, ele aparece instigando seu interlocutores: “Quando você conta uma história, você dá alma para o produto”. No filme, o estilista diz que sua relação com o couro ia até o show room dos curtumes, ele nunca tinha entrado no universo mágico da indústria da transformação. “Pensar no couro muito mais que um vetor econômico era muito novo pra mim”, afirma. Ronaldo revela que conseguiu ver no couro páginas que falam da apropriação da cultura de um país. “E se fizéssemos uma textura nossa, brasileira, uma folha de papel, que você pode fazer o seu o desenho pessoal?”, sugeriu. “Eu quero olhar o couro uma base de uma história a ser contada”. Assim, ensinou que as marcas do couro do boi da caatinga, muito mais que defeitos, podiam ser vistos como marcas de sofisticação . “Nessa pele muito mais do que registrar números, a gente pode desenhar memória, história, pode desenhar caminhos possíveis de se pensar um design no Brasil. Pensar o couro como base de desenho”, conclui.

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