Identidade recuperada

Ex-menina de rua lança hoje, na Academia Mineira de Letras, o livro “Divã de Papel” com relatos de sua infância

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

RICARDO MALLACO / O TEMPO
Terapia. Por meio da escrita, Zuza driblou seu passado e hoje sente-se realizada com a vida que tem
Com uma voz firme e sem vergonha de dizer o que pensa, Maria de Jesus da Silva, mais conhecida como Zuza, conta sua história de vida em ritmo acelerado. São tantos casos que acompanhar tudo exige total atenção do ouvinte. Um esforço que não cansa, já que cada caso narrado é uma lição de vida misturado à dose certa de humor. Zuza é uma manicure de 63 anos que, depois de passar por uma infância miserável, escolheu a literatura como forma de aliviar o sofrimento causado por suas lembranças. Depois de escrever as suas memórias, compostas por situações de humilhação, passagens por orfanatos e outras instituições, ela considera-se restabelecida e realizada. “Eu sentia um alívio muito grande ao escrever e, ao mesmo tempo, chorava demais por estar revivendo todo o meu passado. Mas foi muito importante para mim poder colocar tudo no papel para seguir em frente”, desabafa Zuza. Assim, por meio da escrita, ela se libertou da dor e, ao mesmo tempo, gerou o livro “Divã de Papel” que será lançado hoje na Academia Mineira de Letras. Na obra, a autora relata com riqueza de detalhes os problemas de sua família, composta pela mãe e outros sete irmãos, quando eles se mudaram do interior para Belo Horizonte, na década de 1950, deixando para trás o pai alcoólatra. Contribuem com relatos no livro Eva da Silva, a “Veva”, e Geralda da Silva, a “Lalada”, duas das irmãs da autora. Elas apresentam visões distintas sobre os mesmos fatos da infância, o que dá ao leitor uma diferente perspectiva da miséria que viveram. Em comum, as narrativas são marcadas pela oralidade. Foi essa característica que chamou a atenção de duas acadêmicas de Belo Horizonte. Antes mesmo de sair do prelo, o livro de Zuza foi base do pós-doutorado de Ivete Walty, em Ottawa, no Canadá, e também foi objeto de estudo da dissertação do mestrado de Gislene Silva, pela PUC. Ambas professoras identificaram no texto de Zuza o gênero de testemunho pela forma com que ela escrevia. “A literatura de testemunho tem origem nos relatos das grandes guerras mundiais. No Brasil, as obras desse gênero falam de minorias, marginalizados e de cárceres. São memórias com traços de oralidade na forma de escrever e usualmente com descrição de cenas violentas. Um exemplo é o ‘Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada’, de Carolina Maria de Jesus”, exemplifica a mestre em literatura Gislene Silva, que foi também a responsável pela digitalização dos manuscritos do livro. A mestre, porém, ressalta outro importante aspecto do livro. “Ela começou a escrever somente depois dos 40 anos e, mesmo assim, conseguiu dar uma linearidade impressionante à sua própria história”, destaca Gisele. As particularidades linguísticas do livro não parecem muito claras para Zuza. Ela quer mesmo é que as pessoas se divirtam e aprendam com os relatos de sua vida. “Eu acho que meu livro pode ajudar muita gente, porque ele é quase uma cartilha sobre superação. Tento mostrar que quando tudo estiver muito ruim na vida, a tendência é melhorar. Mas tenho certeza que quem ler o livro também vai rir muito”, conta Zuza. Ainda em clima festivo, ela revela que a escrita continua a fazer parte de seus planos, mas vai mudar o assunto. Da próxima vez, o foco será relacionamentos amorosos. “Eu vou escrever um novo livro sobre dois namorados que tive. Um era muito mentiroso; o outro, verdadeiro. Com isso, quero mostrar para as mulheres com que tipo de homem a gente lida”, brinca. Agenda O quê. Lançamento do livro “Divã de Papel” de Maria de Jesus da Silva Quando. Hoje, às 19h30 Onde. Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1.466, centro) Quanto. Entrada franca     O livro “Divã no Papel” Autora . Maria de Jesus Silva Editora.  Anome Livros Preço . R$ 40

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