História de miséria superada

Amizade com professora aposentada foi estímulo para Zuza se dedicar à escrita de memórias reunidas em livro

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

João Natalino / divulgação
Nova fase. Zuza, que veio com a família do interior para Belo Horizonte, aproveita do humor para contar sua história de dificuldades
Muitos usam o termo “anjo da guarda” para designar aqueles que, sem pedir nada em troca, ajudam a quem precisa. A ex-menina de rua Maria de Jesus da Silva, a Zuza, que lança seu primeiro livro “Divã de Papel” hoje, na Academia Mineira de Letras, prefere chamar seu anjo de Vera Felício, uma amiga. Foi há alguns anos atrás que Vera, professora aposentada pela PUC, recebeu Zuza pela primeira vez em sua casa para que ela prestasse seu serviço de manicure domiciliar. Um encontro que, desde o começo, rendeu boas impressões das duas partes. “À primeira vista tivemos uma empatia muito grande uma pela outra. Isso cresceu e tornou-se uma bela amizade,” conta a professora. Por isso, não foi surpresa quando uma virou confidente da outra. “Ela vivia me contando histórias da vida dela e da infância com uma riqueza impressionante de detalhes. Sempre falava, por exemplo, do período que a mãe dela trouxe todos os filhos para morar na capital. Eles foram obrigados a fuçar lixo e pedir esmola na rua”, conta Vera. O excesso de casos e o brilhantismo da locutora ao narrá-los fizeram com que Vera a incentivasse a colocar tudo no papel. Sem saber como escrever, Zuza, que não tinha completado seus estudos, escreveu do modo que sabia. “A oralidade é muito importante na obra porque mostra que ela sabia escrever de um modo que todos entendem”, afirma Vera. A escrita entrou na vida de Zuza no mesmo período em que passava por uma fase muito difícil. “Minha filha precisava de um transplante de córnea e eu estava ficando deprimida com aquela situação, não era só sofrimento, sentia que estava ficando louca”, relata Zuza. Nessa época, ela começou a fazer terapia para tentar aliviar a dor e pressão que sentia. “Foi por volta de 1994, quando entrei no consultório pela primeira vez. Era bom estar lá, mas eu não conseguia me expressar direito, falava rápido e muito. Até que a terapeuta me perguntou: ‘De onde vem a Zuza?’”, relata. Essa pequena e complexa questão estimulou a ex-menina de rua a colocar toda sua história no papel como havia sugerido a amiga Vera Felício. Depois de um tempo, ela voltou com os cadernos preenchidos e entregou tudo a Vera, que os levou para universidade onde trabalhava. Os manuscritos despertaram curiosidade e diversos elogios de outros acadêmicos. Vera, porém, é pontual ao destacar a relevância do livro. “Zuza conta os problemas que ela viveu, mas eram problemas de muitos. Acho que, ao contrário de romances que deixam mais ou menos escondida a realidade, o livro ‘Divã no Papel’ transcreve o que realmente acontece, com toda a dureza e veracidade”, conclui. O Humor. Todos os depoimentos sobre Zuza apresentam um mesmo ponto: a capacidade que ela tem de fazer as pessoas ao seu redor rirem. Esse traço da autora está presente nesse seu primeiro livro. “Ela ri de tudo, e com uma linguagem debochada e ironizando o sistema, ela conseguiu contar toda sua história”, afirma a mestre que analisou a obra, Gislene Silva.  Para manter o humor característico da escritora, o editor do livro Rogério Zola Santiago afirma ter mantido ao máximo a estrutura original das frases. “Ela escreve do jeito que fala. Eu não mudei muito para não perder a essência dela no livro”, admite. Para ele, transcrever a linguagem de Zuza para uma linguagem mais formal seria negar a história dela. “Ela conseguiu vencer o sofrimento da miséria através do bom humor. Essa é marca dela”, interpreta o editor. Trecho “Estão aqui desabafos e gritos, silêncios e dores, certo ou errado, as escritas, mas de qualquer forma estou fazendo uma terapia com quem nada quer entender, só quer me dar vazão para eu esvaziar o meu interior.” Maria de Jesus da Silva (Zuza), no livro “Divã no papel”

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