Experimentações na poesia

Gaúcha Angélica Freitas vem a Belo Horizonte para falar sobre sua carreira na 61ª edição do Ofício da Palavra

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Renata Freitas
Novos ares. Natural de Pelotas, Angélica Freitas é apontada como uma das referências da poesia contemporânea brasileira
Os gêneros literários têm seus alicerces modificados de acordo com a época. Já houve um tempo, por exemplo, em que todo poema era formado por versos decassílabos e sua impenetrável estrutura. Atualmente, todos os gêneros, tanto líricos quanto narrativos, passam por transformações, frutos em grande parte de novas tecnologias, como a internet. Nesse contexto, a poeta gaúcha Angélica Freitas, que participa do bate-papo Ofício da Palavra, hoje, no Museu de Artes e Ofícios (MAO), é um exemplo de escritora contemporânea que utiliza de novas plataformas de comunicação e realiza experimentações para criar seus textos. Autora de dois livros de poemas – “Rilke Shake” (2007) e “Um Útero é do Tamanho De Um Punho” (2012) – e do romance gráfico, criado em parceria com o quadrinista Odyr, “Guadalupe” (2012), Angélica, que é já atuou como jornalista, foi eleita a “escritora do ano de 2012” pela “Folha de S. Paulo” e, atualmente, concorre, com seu último livro, ao Prêmio Portugal Telecom 2013, na categoria poesia. Além disso, ela é mais um exemplo de artista descoberta pela internet. Foi por meio do seu blog Tome Uma Xícara de Chá que seus primeiros poemas foram publicados, ainda no ano de 2004. Nesse mesmo período ela deu início às experimentações com o site de busca Google. A primeira delas foi a elaboração do poema sobre o tiro que o poeta francês Arthur Rimbaud levou do escritor Paul Verlaine. “Pesquisei sobre o fato e notei que havia muitas disparidades sobre esse caso. Daí, recortei frases de diferentes sites para contar uma história única e postei no meu blog”, descreve a poeta. Prática similar foi usada por ela no seu último livro. “Usei o Google para pesquisar sobre o corpo da mulher. Foi quando tive um ‘estalo’ de pesquisar frases simples como ‘a mulher vai’, ‘a mulher quer’. Peguei os resultados e dei ordem a eles para dar sentido”, conta Angélica. Apesar do reconhecimento por todo seu trabalho, o segundo livro de Angélica obteve mais atenção não só pelas experimentações, mas também pela forma simples e objetiva com que ela descreveu o universo feminino. “Eu queria escrever poemas sobre algum tema que me instigasse. No momento que escrevi ‘Um Útero É do Tamanho de Punho’ eu estava convivendo com um grupo de ativistas femininas. Mas não é um livro feminista, é uma tentativa de investigação sobre as mulheres”, descreve. A obra é composta de 35 poemas escritos sem rebuscamento gramatical. Esse aspecto, segundo ela, causou bastante controvérsia no meio artístico. “Alguns poetas ficaram incomodados com a forma que escrevi, mas foi uma escolha estética com o objetivo de ser mais escancarada o possível. Por isso utilizei estruturas simples, palavras pequenas e ordem direta das frases”, conta. Outra marcante característica da escritora presente em todas suas obras é o humor. “É uma necessidade pessoal trabalhar com o humor em meus textos porque acho que sou salva por ele. Além disso, acho que esta é a maneira que encontro de me relacionar com o mundo”, desabafa. Curiosa com relação às formas de registros textuais, Angélica prepara seu primeiro roteiro para teatro. “Os limites entre poesia e prosa, por exemplo, não são uma questão para mim. Sou do time de pessoas que quer experimentar e ver até onde posso chegar. Não sou uma guardiã das fronteiras”, conclui Angélica Freitas. Agenda O quê. Oficina da Palavra com Angélica Freitas Quando. Hoje, às 19h30 Onde. Museu de Artes e Ofícios (praça Rui Barbosa, s/nº, centro) Quanto. Entrada franca Trecho “Não devias te casar/ com uma subversiva/ que usa mauser/ debaixo do poncho/ e calcinhas/ de algodão cru/ em desacordo/ com as meias/ que vê um godard/ e arrota coca-cola.” Trecho de “Um Útero É do Tamanho De Um Punho”, de Angélica Freitas

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