Dos moradores, com afeto

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Admita que visitar os pontos turísticos de uma localidade não significa que você de fato conheça a cidade em que eles estão. A vida que pulsa como modus vivendi é que dá identidade a um lugar, muito além dos cartões-postais. Vejo informalmente documentada (e com uma graça especial por esse sabor informal) parte de uma cidade verdadeira no livro “Guia Morador Belo Horizonte”, que reúne textos e imagens de moradores, formando uma “amostragem não estatística aberta para o acaso”, como definem os organizadores Fernanda Regaldo e Roberto Andrés. No prazeroso volume que estou com a leitura em curso, fico sabendo das bicas e de hortas existentes pela cidade e também dos fantasmas da capital, dos carroceiros que resistem a sobreviver da profissão, do histórico do futebol por aqui, da riqueza dos nossos gradis e dos passeios, de cinemas que se foram, de histórias de vida por trás do Duelo de MCs, dos pássaros que nos sobrevoam, das guardas de congo que sapateiam em nosso chão, dos shopping populares, das lojas de aviamentos, os armarinhos. São textos e imagens de colaboradores que amam a cidade e buscaram detalhes dessas razões do gostar para escrever sobre, oferecendo um guia aberto às descobertas. Não há qualquer intenção de fechar um conjunto de indicações de lugares e fazeres. Pelo contrário, o que demonstra ser o livro é uma porta de entrada acessível ao despertar de novas incursões por roteiros intuitivos, práticas cotidianas. Pedindo licença dos autores para oferecer uma pitada aos que me leem, reproduzo um trecho do que escreve Elisa Marques sobre a Bica da Vila Unidade, no bairro Jardim Atlântico: “Bem em frente à casa de Fátima, do outro lado do córrego, há uma bica d’água. A nascente fica debaixo de um pé de manga e os moradores da vila, unidos que são, sempre gostaram de se reunir ali, fazendo forrós que varavam a madrugada. Quando amanhecia, curavam a ressaca ali mesmo, com a água da bica. Nos tempos de aperto, nas épocas em que faltava água pela cidade, a bica resolvia o problema. Cada um enchia seu galão. Por incrível que possa parecer, a Bica da Vila Unida resistiu às obras. Os tratores já passaram, e Fátima, a bica e o pé de manga continuam ali, dia e noite, guardando essa história”. Nian Pissolati nos conta que o número de carroceiros cadastrados na prefeitura é de cerca de 3.000, mas somados os não cadastrados, estima-se que cheguem a 11 mil. Um ponto de concentração deles é a avenida Mem de Sá, onde se forma o conjunto dos bota-fora da regional Leste. Nian acompanhou um carregamento de Olavo, o carroceiro que, em meio ao trânsito urbano, “além de ter de cuidar para que seu animal não se assuste, deve também manter um bom ritmo de marcha, evitando reclamações dos sempre apressados automóveis”. Se isso é possível, os fantasmas são “catalogados” por Heloísa Starling, que atribui tal ocorrência à destruição do velho Curral del Rey para a construção da capital; ou, “como conseqüência da expectativa gerada, nos subúrbios, pelo sonho de uma modernidade, feita da necessidade de suprir carências ancestrais”. O fantasma do bairro da Serra, por exemplo, “vem, pontualmente, cumprir seu destino à meia-noite e trinta do nevoeiro de junho junto aos portões das casas e dos edifícios da rua do Ouro, quase na esquina da avenida do Contorno. (...) no mais das vezes um cavalheiro de terno preto e guarda-chuva, imóvel, na rua larga e vazia”. Nuno Manna percorre quatro shoppings populares no centro: Oiapoque, Xavantes, Tupinambás e Caetés, e não perde a oportunidade, ao observar: “Qualquer semelhança entre o fim dos grupos indígenas que emprestam seus nomes e a guetização dos comerciantes ambulantes gerada para que homens modernos pudessem insistir em tocar seu projeto civilizatório não é mera ironia do destino”. Mais que colocar em xeque os guias turísticos e seus focos tradicionais, “Guia Morador Belo Horizonte” é uma demonstração de afeto pela cidade, por seus habitantes e por suas escolhas. Os organizadores se colocam abertos a colaborações e informações estão disponíveis no sítio www.guiamorador.org .

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