Cansada da selva de pedras

Relações com São Paulo, com os homens e com a rotina são temas centrais de novo livro da gaúcha Clara Averbuck

iG Minas Gerais | Deborah Couto e Silva |

paula ragucci/divulgação
Sem medo. A escritora gaúcha Clara Averbuck é conhecida pela sua desenvoltura ao falar de si mesma em textos descontraídos
Ela foi uma das primeiras blogueiras do Brasil, e não tem nenhum medo ou vergonha de falar de si mesma. Sua sinceridade conquistou milhares de fãs na internet e a tornou um dos mais conhecidos nomes da nova geração de escritores brasileiros. Escritora desde os 17 anos, a gaúcha Clara Averbuck, 34, já teve obras traduzidas e adaptadas para cinema e teatro. Colaborou com inúmeras revistas, jornais e portais. Clara está em Belo Horizonte hoje para lançar seu novo livro no Sempre Um Papo, às 19h30, na sala Juvenal Dias, do Palácio das Artes. A publicação “Cidade Grande no Escuro” reúne crônicas de 2003 a 2012, quase todas revelando alguma impressão sobre sua relação com a cidade de São Paulo, onde vive depois de ter se formado na faculdade, no Rio Grande do Sul. “Me mudei para São Paulo, pois precisava deixar Porto Alegre para trás. Me livrar dos sotaques, do gauchismo, das pessoas e de tudo o que tinha vivido até então. Precisava de uma vida nova”, diz Clara, justificando o motivo de ter feito o que quase todo mundo faz. De lá para cá – sete anos e cinco casas depois –, no entanto, muita coisa mudou e ela anda não suportando mais a cidade. “Minha relação com São Paulo agora anda muito deprimente. Essa cidade é muito feia. Também não aguento mais ouvir ‘tio’ e ‘meu’, todo mundo aqui é muito individualista, todo mundo é sem dinheiro, a vida é sempre e muito difícil...”, jorra a escritora. “Preciso mudar de vida de novo, busco um lugar mais inspirador. Quero ir para o Rio de Janeiro, onde se parece ter um senso melhor de coletividade. É uma cidade linda, politicamente mais interessante e com uma história deslumbrante”, diz. Mas não só a relação com a cidade escolhida se modificou nessa jornada. Sua visão de mundo deu uma guinada forte para as bandas do feminismo. O tema passou a ser cada vez mais recorrente em seus textos e está inserido fortemente em sua visão de mundo. “Me envolvi realmente, muitíssimo com essa temática e provavelmente ela não vai deixar nunca mais a minha obra”, afirma. “Há coisas que escrevi no passado que gostaria, por exemplo, de revê-las, pois não condizem com o que penso agora e jamais escreveria isso hoje”, diz, citando como exemplo a expressão “mulherzinha com bolas”. Apesar da forma negativa na maioria das vezes com que acontece a relação homem mulher, isso é algo sempre lembrado em sua escrita. Não como romance, mas com uma visão feminina sobre os homens ou sobre como essa relação acontece. “É que os homens são muito difíceis de lidar, né? Não os homens da maneira como nasceram, tudo é uma construção sociocultural. Mas tem a ver com a forma como fomos criados. Quando a gente os vê falando sobre mulheres ou percebe o que pensam sobre elas, meu Deus, dá vontade de morrer!”, exclama. “Hoje mesmo estava almoçando no restaurante e o cara da mesa ao lado estava dizendo que se achava legal porque sempre pagava a conta. Faça-me o favor! Eu não preciso que paguem as minhas contas! Há também um problema muito grave com a maneira como as mulheres foram criadas para lidarem com os homens e atenderem suas necessidades. Elas dizem: ‘não faça isso, assusta os homens!’. Esse tipo condescendência não poderia acontecer nos dias hoje”, afirma a escritora. E são justamente essa impulsividade e esse desprendimento, tanto na maneira de escrever quanto de lidar com a vida que tornaram Clara Averbuck um sucesso, primeiramente virtual e, posteriormente, literário. Agenda O que. “Cidade Grande no Escuro”, de Clara Averbuck, no Sempre um Papo Onde . Sala Juvenal Dias, Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro) Quando. Hoje, às 19h30 Quanto. Entrada franca   Vida pessoal Clara Averbuck é entusiasta de cervejas, uísques e discos de vinil, cantora de obscuridades, mãe da Catarina e vive com os gatos em São Paulo desde 2001. Já participou do programa “Troca de Família” da TV Record, que causou a separação dos dois casais participantes.

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