Sacoleiras lucram até 300% com viagem tipo “bate-volta”

Passagem encareceu para pagar por escolta armada, após assaltos na estrada

iG Minas Gerais | Jáder Rezende |

UARLEN VALERIO / O TEMPO
Elas são tratadas como “corretoras de moda”, a grande maioria vive do comércio informal, não emite nota fiscal e chega a faturar até 300% em cada item vendido. São as sacoleiras que cruzam o país, sempre de ônibus, em busca das melhores mercadorias para atender a todos os gostos e desejos de suas fiéis clientelas. A reportagem do jornal O TEMPO acompanhou um grupo até São Paulo, numa viagem do tipo “bate-volta” que durou mais de 30 horas sem folga e percorreu diferentes feiras da madrugada.   A viagem teve início às 17h30 da última segunda-feira, no Terminal JK, de onde partem diariamente cerca de 30 ônibus fretados apenas para a capital paulista. Depois de enfrentar um grande engarrafamento na avenida Amazonas e com 41 passageiros a bordo, o veículo com 44 assentos seguiu pela BR–381, em comboio, acompanhado por duas escoltas fortemente armadas. A passagem, que antes custava R$ 100, foi acrescida em R$ 50 só para custear a escolta. “É mais seguro assim. No início do mês dois ônibus foram assaltados na saída de Betim”, justificou Joselaine dos Santos, 25, guia da viagem. Duas horas depois, próximo a uma barreira da Polícia Rodoviária Federal (PRF), “parada estratégica”. Um dos seguranças da escolta, com uma garrucha de cano serrado em punho, adentra o ônibus para uma inspeção final. A viagem, finalmente parece engrenar e todos tentam se acomodar em suas poltronas da melhor forma possível. Muitos lançam mão de comprimidos para dormir e dar conta de enfrentar a maratona, que terá início por volta das 3h. Oração por boas compras. O agente de bordo Wendell Oliveira, 24, dá as boas-vindas e convida a todos para uma oração. Depois de rezar o Pai Nosso, pede bênção a Deus “para todos comprarem as melhores mercadorias pelos menores preços”. E alerta para as regras da viagem: limite de quatro volumes por pessoas (para cada extra é cobrado taxa de R$ 20), sendo que manequins e pufes não contam como volume, caso haja espaço no bagageiro. E alerta sobre a importância de se exigir a nota fiscal, para não haver problemas com a Receita Estadual no caso de uma blitz surpresa. Por fim, apela para que todos tenham cuidado com os soníferos. “Da última vez, uma passageira teve overdose e foi levada por uma ambulância”. Entre barulho de marmitas de alumínio e roncos, alguns conseguiram descansar. O ar-condicionado, cuja temperatura se alternava entre muito quente e frio demais, dificultava, para a grande maioria, a tentativa de pregar os olhos. Pouco depois das 3h de terça-feira, o ônibus chega ao bairro Pari, na capital paulista, e se posiciona ao lado de dezenas de outros num grande estacionamento da avenida Vautier, onde funciona uma das feiras da madrugada. Muitos optam por seguir direto para a rua 25 de Março, no Brás, para aproveitar as ofertas dos camelôs que, também na madrugada, vendem de tudo – principalmente brinquedos e roupas falsificados. Na avenida Vautier, os ambulantes também ganham as ruas com iPhone 5 a R$ 300 e Galaxy S4 a R$ 200, “desbloqueado e com garantia de três meses”. Fidelidade Mais uma facilidade. Além de lanche a bordo, as sacoleiras contam com novo benefício: cartões de fidelidade oferecidos pelas operadoras que fretam ônibus. A cada dez viagens, o cliente tem direito a uma de graça. Roupa é o item mais cobiçado Peças de vestuário estão entre os itens mais disputados pelas mais de 30 mil sacoleiras que, todo dia, percorrem as feiras do Brás. Blusas femininas custam em média R$ 10 e são revendidas por R$ 35. Shorts jeans e bermudas, R$ 25 (R$ 80 a R$ 90), camisa polo sai a R$ 12 (R$ 60) e calça jeans, de R$ 10 a R$ 30 (até R$ 100). Produtos falsificados também lideram o ranking de vendas, como óculos Ray-Ban (R$ 5 a partir de 12 peças, revendido a R$ 60 cada). A grande barreira são os comerciantes chineses, cujo vocabulário se limita a “barato”, “amigo” e “réplica”.

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