Lenda do boxe mineiro relembra carreira vitoriosa

Ex-lutador fala sobre as dificuldades para a prática do esporte nos anos 60, que continuam até os dias de hoje

iG Minas Gerais | Daniel Hott |

RICARDO MALLACO
Nostalgia. Ex-boxer exibe com orgulho as medalhas e troféu dos tempos em que o boxe era paixão nacional
“Antes eu era peso-pena. Agora, dá pena de ver”. O bom humor ao falar sobre si mesmo é a evidência de uma pessoa realizada com suas conquistas. Aos 71 anos, Fued Mattar vive de relembrar um passado distante, mas que não sai de sua cabeça. O brilho nos olhos e a emoção nas palavras dão vida à história de um ex-pugilista. Primeiro mineiro a ser campeão brasileiro de boxe, Fued teve seu auge na década de 1960. No antigo ginásio do Paissandu, onde hoje está localizada a rodoviária de Belo Horizonte, ele construiu sua trajetória. Mais de 200 lutas realizadas e só cerca de 15 derrotas. Apenas uma por nocaute.   A história começou ainda na adolescência, em 1956. O amor pelo boxe veio como herança do pai e levou um jovem franzino a subir nos ringues, de onde só saiu 16 anos depois. “O boxe naquela época era coqueluche, todo mundo assistia e comentava. Eu saía na rua e era reconhecido. Modéstia à parte, já dei muito autógrafo”, recorda. Fued e seus contemporâneos batalharam muito para alcançarem o reconhecimento. À época, o esporte não era uma forma de sustento, e os patrocínios eram raros. Os pugilistas viviam de apoios pontuais. Realidade que dura até hoje. “Nossa vida era complicada. Não tínhamos patrocínios e não se vivia do boxe. Eu trabalhava para me sustentar. Só comecei a subir de nível quando passei a viajar pelo Brasil”, destaca o aposentado. E ele desbravou o país em busca de sucesso. Foi campeão nacional dos pesos-pena em 1960, chegou a lutar em território boliviano e esteve a uma luta de se classificar para o Pan-Americano de Chicago. Falhou, mas nem por isso perdeu respeito no âmbito estadual. “Naquela época, ele era um dos melhores do Brasil. Treinava na academia de Polícia Militar e nós dávamos algum apoio para ele. Foi um grande atleta, o precursor do esporte em Minas”, afirma o coronel Pedro Ivo Vasconcellos. As transmissões na extinta TV Itacolomi ajudaram a criar um mito, que permaneceu nos ringues até 1972. A despedida, em luta na praça da Rodoviária, marcou a última vitória de Fued. Dos ringues, ele passou a atuar nos bastidores. Primeiro como treinador e, posteriormente, como presidente da Federação Mineira de Boxe (FMB), cargo que ocupou até 1996. “Sempre caminhamos sozinhos, pedindo esmola para a Secretaria de Esporte. Tentei promover o boxe para não deixá-lo morrer, mas é difícil. Aos poucos, o interesse diminuiu. Não tivemos apoio suficiente”, recorda. Por conta do esporte, Fued conheceu o mundo e posou ao lado dos principais nomes do esporte, como o norte-americano Evander Holyfield. Hoje, em meio às lembranças que dominam sua cabeça, ele traça sua nova luta, sem esquecer as glórias do passado. “Agora, brigo pela sobrevivência”, brinca Fued, que ainda esbanja saúde. “Sigo acompanhando o boxe. Um casamento de tantos anos não pode morrer nunca”, finaliza.

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