Os novos reis dos animais – fábula morta

iG Minas Gerais |

INTERVENÇÃO SOBRE IMAGENS DE VASSALOS E SOBERANOS VARIEGADOS
Quem nasceu para ema brasileira nunca chega a avestruz australiano – e vice-versa
Conforme contava antes de ser interrompido pela memória, vigoroso trem misto, puxado por valente maria-fumaça, levando, em um dos vagões cargueiros, dezenas de animais do famoso Circo de Variedades Moscou-Pequim, descarrilou entre BOC e MOC na tarde ensolarada de oito de outubro de 2013. Descarrilou em terreno plano, é bom que se diga, já que entre mortos e feridos salvaram-se todos, do aglomerado de gente, bicho, lona, cordas, palhaços, trapezistas e come-quietos daquilo que se convencionou chamar circo, essa coisa tão antiga, meu Deus!, mas tão gostosa e tão saudosa que chega a doer na memória! Descarrilou, as paredes se abriram e a bicharada deu no pé, que ninguém ali era bobo. EXOTISMO O famoso Circo de Variedades Moscou-Pequim, conforme indica o nome, viera lá de cima do mundo, recheado de línguas estranhas e bichos tão estranhos quanto. Além de mongóis e chinas de variegadas configurações, possuía animais raros, dois deles extintos: um dragão, dos que botam fogo de verdade pelas ventas, e um macho unicórnio, daqueles que fazem a fortuna dos autores de mitologias estapafúrdias. Não era só. Entre os bichos fugidos, conforme inventariou à polícia o proprietário do circo, havia um casal de elefantes, outro de leões, ainda outros de tigres e ursos, além da fauna miúda, constituída por jaguatiricas, macacos, araras e tucanos, naturais cá da terra. Ah, dos estrangeiros, esquecia-me referir um casal de avestruzes e outro de cangurus, contrabandeados da Austrália, numa das passagens do Moscou-Pequim por lá. PROLEGÔMENOS Extintos, mas de sexos distintos, o dragão, que era fêmea, cismou de se encantar com o macho unicórnio que, sem companhia desde a alta Idade Média, suspirava por amante terna e carinhosa. Apaixonaram-se doidamente, casaram e tiveram – quem diria! – alguns herdeiros de estranha conformação, sendo mais comuns um filhote dragão com chifre na testa e pequeno unicórnio com rabo de dragão, ninharias para a engenharia genética. Interessa aqui é o fato de que, escapados do trem, desembestaram os bichos pelo cerrado, reproduzindo-se aos montes naquelas paragens agrestes, devorando tudo o que lhes caía entre unhas e dentes, deixando à míngua os animais rurais locais. Certo dia, mais esfomeados do que nunca, reuniu-se em assembleia extraordinária geral a totalidade dos bichos nativos, de caquéticos a recém-nados. Motivo? Tomar alguma providência que lhes garantisse a sobrevivência naqueles atrozes matagais. DIVAGANDO Assembleia de bicho é igual assembleia de gente, de modo que não vale a pena perder tempo com miudezas. Depois de fervorosos debates, nomearam representantes junto aos bichos do Moscou-Pequim um lobo-guará e uma ema, veja você a que foram reduzidos os autores contemporâneos relatores fiéis dos acontecimentos. Confesso que estava bastante feliz por escapar da armadilha lá de cima, quando teria de escrever “um unicórnio”, sem supor que, aqui embaixo, teria de me sujeitar à infâmia de “uma ema”. Ainda bem que os escritores de verdade morreram, com exceção de Rubem Fonseca, o imortal, deixando entre nós apenas tristes trastes travestidos de tigres travessos. Mas chega de maledicência. RESUMINDO Chegando à capoeira onde descansavam diversos exemplares dos bichos exóticos, nosso casal de embaixadores procurou saber a quem se dirigir. Ninguém sabia. Não sabendo, mandaram procurar o apaixonado casal unicórnio-dragão, que não estava nem aí, cuidando de amor & prole, ou vice-versa, depois de séculos de abstinência sexual e inexistência física. Mandaram que procurassem os australianos, voltando ao interrompido bate-bola. Os australianos estavam numa boa. Habitantes outrora de regiões climáticas mais ou menos assemelhadas, tanto na calvície da cobertura vegetal quando no exagero térmico, iam e vinham pachorrentos, conforme Deus é servido. Mais vinham do que iam, lógico. EXTRAVAGÂNCIA Nossa amada ema (ai!) não era de estranhar novidades. Nem o lobo-guará, de saudosa memória e que Deus o tenha. Ainda assim, embasbacaram. Pois não é que da barriga de um dos cangurus fêmeas emergia gosmenta cabecinha de indecente canguru filhote? E que no papo de certo avestruz salientava-se protuberância desmesurada e desconhecida? Viram mais: aqueles estranhos e jamais vistos bichos eram bem maiores que eles, naturais da raquítica natureza local. A bendita ema (ah, agora escapei!) sentiu-se humilhada pela estatura dos avestruzes. E o lobo-guará, a despeito de seu olho mágico (depois conto essa), viu-se reduzido a filhote de vira-lata diante dos portentosos cangurus. Não se deram por achados, contudo. E perguntou a ema, polidamente: – Que ser diabólico és tu, criatura, que tens filhos pela barriga enquanto eu tenho filhos pelos ovos que boto e choco? No que o canguru fêmea ripostou: – Porque Darwin me fez assim, minha filha. Ou foi Deus, que tanto faz. Por sua vez, indagou o lobo-guará, diplomaticamente: – Que ser diabólico és tu, criatura, que ostentas tamanho trambolho no meio do descomunal pescoço? No que esclareceu o avestruz macho: – Não me leve a mal, mas é que acabei de almoçar sem desossar uma dessas criaturas de duas pernas que deambulam por aí, procurando raízes com que matar a fome. CONCLUSÃO MAROTA Viram o lobo-guará e a ema serem seres (ai!) inferiores. Por um lado, desconheciam quem fosse Darwin. Por outro, nunca provaram – nem gostariam de – carne de capiau. Estando assim rotulados como inferiores, voltaram para juntos de seus iguais proclamando que novos reis haviam chegado, e que reinariam sobre tudo e todos, e que deveriam de então em diante prestar-lhes vassalagem e homenagem. E assim foi feito.

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