O cinema verdade de Coutinho

Aos 80 anos, documentarista ganha livro definitivo sobre sua carreira e tem retrospectiva na Mostra de São Paulo

iG Minas Gerais | Ludmila Azevedo |

bianca aun/ divulgação
Referência.Eduardo Coutinho em sua passagem pela capital mineira para divulgar o filme “Moscou”, com a presença dos atores do Grupo Galpão. À direita, de cima para baixo: o emblemático “Cabra Marcado para Morrer”, que levou anos para ser concluído
Milton Ohata, organizador da publicação “Eduardo Coutinho”, que acaba de sair do forno pela editora Cosac Naif, conta que um trabalho de Hércules o aguardava em algumas horas: convencer o documentarista, homenageado na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que acontece até o próximo dia 31 de outubro, a autografar o livro na noite de seu lançamento. “Ele está relutante por causa dos elogios de alguns ensaios”.   Quem conhece Coutinho consegue imaginá-lo acendendo um cigarro durante a recusa, e isso não tem a ver com um possível temperamento difícil do cineasta, mas com o fato de ele nunca ter se rendido aos confetes que recebe por ser considerado referência máxima do gênero no país, ou como Ohata resume: “Na atual sociedade do espetáculo, um sujeito assim é coisa rara”. O diretor de “Cabra Marcado para Morrer”, “Santo Forte” e “Edifício Master” estabelece, ao longo de sua cinematografia, uma ligação intensa com o espectador. “O Eduardo Coutinho consegue falar das pessoas comuns com muita verdade. Público e especialistas gostam dos filmes dele por causa disso, tudo é muito pensado esteticamente. A ‘feiúra’ é proposital. Ele é o grande responsável pelo boom do documentário brasileiro e consegue ter liberdade trabalhando com baixos orçamentos”, considera Ohata. Teses acadêmicas e algumas publicações já esmiuçaram a arte de Coutinho, que em maio de 2013 completou 80 anos, sem pensar em abandonar as câmeras. A grande contribuição deste lançamento é ir além da cronologia, revelando aspectos amplos do olhar do diretor. “Eduardo Coutinho” chega às estantes como item obrigatório para entender cinema e jornalismo cultural. “O Coutinho visitou a editora (Cosa Naif) em 2009. Naquela época tínhamos a vaga ideia de um livro. Mesmo com as trocas na direção da empresa, mantínhamos a conversa acesa. Sempre que eu ia ao Rio, me encontrava com ele, e, no ano passado, achei que seria o momento ideal tirar o projeto da gaveta. Contamos com a parceria da Mostra para que ele fosse lançado durante sua programação (que inclui a exibição de documentários e raridades do diretor) e comecei a trabalhar no arquivo”, revela o organizador do livro. Ohata brinca que a peneira foi um processo penoso. “Não dava para colocar tudo. Então, eu fazia escolhas com dicas dele”, explica. Dentre o conteúdo mais precioso está a série de críticas cinematográficas que Eduardo Coutinho escreveu para o extinto “Jornal do Brasil”. Com a modéstia de sempre, o cineasta chegou a dizer que havia pelo menos sete ou oito ensaios interessantes dos anos 70. Ohata se deparou com 40 deles, um conjunto considerável. “Poucos se lembram do grande crítico que ele era. No livro, resolvi fazer uma comparação com outros cineastas que também exerceram esse ofício, como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Cada um, claro, com seus estilos e preferências”, diz. O organizador do livro completa que é interessante notar como Coutinho tirava leite de pedra. “Ele produzia críticas muito boas e bem escritas, eventualmente, sobre filmes ruins”. Costura . Milton Ohata optou por dividir o livro em conjuntos. Essa edificação sobre o mítico Coutinho reúne textos escritos pelo próprio diretor, entrevistas extensas, cobrindo um arco temporal que vai de 1976 a 2012. “Uma delas é a conversa com o ator José Marinho, de ‘Terra em Transe’ resgatada na Cinemateca Brasileira. Na conversa, ele fala com o diretor sobre o projeto de ‘Cabra Marcado para Morrer’ – que levou 17 anos para ser concluído. O Coutinho cria naquele momento uma ideia obsessiva, jamais vista na história do cinema mundial”. Para Milton Ohata, “Cabra Marcado para Morrer” é um obra-prima pelo significado político e cultural. Devidamente dissecado no livro, o longa mostra a ousadia de um realizador que sempre se reinventa. “Ele inspira a nova geração até hoje, mesmo que tenha alguns filmes formalmente semelhantes, são muito diferentes. O Coutinho não se acomoda em fórmulas, o que é raro no cinema. Por isso, sua obra é reconhecida mundialmente”. Escalação de primeira “Eduardo Coutinho” tem ensaios inéditos assinados por nomes como João Moreira Salles, Consuelo Lins (que já publicou livro sobre o documentarista), Cláudio Bezerra, Esther Hamburger, Mateus Araújo e Eduardo Escorel. A publicação traz também depoimentos de cineastas como Zelito Viana, Vladimir Carvalho e Sérgio Goldenberg. O livro conta com a colaboração de 27 críticos de cinema de diferentes gerações. A organização de Milton Ohata, a partir de tanto do material extenso disponibilizado pelo cineasta quanto pela intensa pesquisa, resultou em 704 páginas, com 68 ilustrações. O design primoroso também é uma homenagem à altura ao cinema de Eduardo Coutinho. O preço sugerido da publicação é R$ 69,90.

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