“A possibilidade de nos projetarmos no futuro”

Letícia Julião Coordenadora do curso de museologia da Escola de Ciência de Informação/UFMG

iG Minas Gerais |

Geralmente as iniciativas de museus em favelas vêm de moradores locais? Como o Estado se relaciona com essa questão?   As iniciativas de criação de museus em favelas, assim como em outros museus chamados comunitários, têm sido dos próprios moradores ou comunidades interessadas. São ações que se desdobram da luta e do reconhecimento do direito à memória e ao patrimônio de segmentos sociais tradicionalmente alijados das políticas públicas nessas áreas. Obviamente que são iniciativas que necessitam de apoio, sobretudo financeiro, das instâncias governamentais, razão pela qual as relações entre museus comunitários e os órgãos do governo, em diferentes instâncias, têm se tornado mais estreitas. Esse apoio é desejável, a meu ver, embora seja ainda muito tímido. O que não pode acontecer é o Estado assumir o protagonismo de museus surgidos de iniciativas comunitárias. De outra parte, há museus surgidos da ação do Estado e que se tornam efetivamente comunitários, porque são apropriados por moradores detentores do patrimônio musealizado. É preciso reconhecer que, de uma maneira ou outra, todas essas experiências encontram ressonância no pensamento museológico brasileiro. A noção de patrimônio cultural é estendida quando pensamos em experiências como essas? O que importa é reconhecer que patrimônio é noção importante para toda a comunidade. São referências de uma herança comum que têm significado para o presente de uma comunidade, para a sua memória e sua identidade. É nessa perspectiva que a favela reivindica o direito ao museu e o transforma em uma ferramenta importante de conquista da dignidade humana. Qual a importância de um espaço de memória, de arquivo, como um museu, em espaços onde a transitoriedade é grande? Os objetos, as expressões materiais da cultura, que perduram no tempo, emprestam às sociedades um sentido de estabilidade e transcendência. Quando se cria um museu, em última instância, o que está em jogo é a possibilidade de nos projetarmos no futuro. Isso ocorre também com os museus comunitários, a exemplo dos museus de favela. Talvez se possa dizer que, considerando tratar-se de populações mais vulneráveis, expostas muitas vezes a mudanças bruscas, esse papel do museu como lugar que auxilia na construção de um sentido de permanência da comunidade no tempo e espaço ganhe um relevo especial.

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