A busca por um teatro negro

Lucélia Sérgio e Sidney Santiago Integrantes da Cia. Os Crespos de Teatro (SP)

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

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A companhia Os Crespos passou por Belo Horizonte para apresentar seu “Dos Desmanches ao Sonho – Poética em Legítima Defesa” dentro do programação da sétima edição do Festival de Arte Negra (FAN). Lucélia e Jackson são dois dos fundadores do grupo e falam a respeito dessa trajetória de oito anos levando adiante o que eles chamam de “Teatro Crespo”. Conte-nos um pouco da trajetória do grupo Os Crespos. A companhia trabalha há oito anos a construção de um discurso poético que debata a sociabilidade do indivíduo negro na sociedade contemporânea, aliado a um projeto de formação de público. Seu percurso parte da experiência disseminada do TEN – Teatro Experimental do Negro, idealizado e gerido por Abdias Nascimento, que de 1948 ao fim dos anos de 1960, construiu um projeto teatral popular revolucionário, que teve como objetivo central o combate ao racismo e as desigualdades raciais, aliado a uma formação intelectual, lírica e dramática para seus artistas. E como se configura o TEN (Teatro Experimental Negro) feito por vocês? Como ele se atualiza e se mostra hoje em dia? O “teatro crespo” é herdeiro e agente da continuidade do Teatro Negro, privilegia os traços da diferença, sem suprimir ou menosprezar as semelhanças, fazendo aflorar, no signo que representa o sujeito, o que nele foi ofuscado no percurso da construção de suas imagens. Esse Teatro luta pela visibilidade social, política, cultural e artística dos negros e negras. Buscando, em sua produção, investigar, criar e discutir temas pertinentes à sua pesquisa por meio de inscrição nos espaços da cidade de São Paulo, compondo um verdadeiro front cultural com os grupos de teatro de grupo da cidade. Nesses oito anos, podemos falar na construção de uma linguagem. A formação do grupo já previa os desafios da representação que ousava construir. Figurar uma imagem na contramão da representação clássica dos palcos brasileiros, tendo que lutar por espaço e incentivo num cenário pouco aberto à discussão que a cia trazia à cena. Uma verdadeira missão. Não à toa, o grupo foi convidado para integrar o elenco dirigido por Frank Castorf na montagem de “Anjo Negro + A Missão” (Os Crespos viajaram à Europa com esses espetáculos). Depois, veio “Diário de Uma Favelada”, a fala que daria base para a nossa primeira montagem autoral. Com “Ensaio sobre Carolina”, a inserção econômica e social do negro era o assunto que aparecia como figura consciente e com força para se lutar pelos direitos. Apesar de o negro se encontrar em situação de exclusão. Vocês falaram de escravidão. Somos uma sociedade que tem um ranço escravocrata até hoje. Você percebe isso em relação ao teatro? O impacto da escravidão é perceptível em todos os meios, no teatro não é diferente. Se procurarmos nas companhias de teatro, com algum reconhecimento público, teremos grande dificuldade em achar negros em qualquer função – salvo as camareiras – quanto mais em papéis de destaque. O teatro no Brasil quase sempre foi instrumento de dominação, onde as personagens negras apareciam em estereótipos depreciativos. Isso pouco mudou. Ainda temos, no geral, uma cena branca, que diz de uma universalidade que não é real. O teatro é visto ainda como uma arte elevada, para poucos, e nós não estamos cotados nesses poucos. Mas felizmente o número de companhias negras de teatro aumenta a cada ano e, então, é possível mudar esse conceito de exclusividade e figurar um ser negro mais complexo e híbrido, levando para a cena uma realidade múltipla pra ser discutida pela sociedade. Claro que ainda há grandes questões a serem resolvidas, como a formação de atores, diretores e técnicos negros. No teatro hoje, o conhecimento é muito importante para o desenvolvimento estético. O acesso às escolas de teatro, principalmente, às melhores, conceituadas, ainda é restrito, se pensarmos num Brasil no qual somos 53% da população. Vocês são formados na escola de teatro da USP. Percebiam isso lá também? Na USP entramos em um momento ímpar, éramos cinco alunos numa turma de 20! Mas isso não é comum, em geral são um ou dois pra 20. Há quem diga que não temos bons atores negros. Para nós isso é um ranço da escravidão. E como foi a recepção que vocês receberam da escola e dos outros alunos? Na USP, nosso encontro se deu pela observação da nossa invisibilidade. Não se falava dos negros no teatro, não sabiam como lidar com nossos corpos negros na cena. Nós estávamos exatamente furando a barreira da segurança da alta sociedade. Era o momento da discussão das cotas na universidade (que ela (USP), inclusive, ainda não se abriu pra elas), momento de greves e de encontro de 12 alunos negros dentro da Escola de Arte Dramática. Deu samba! Lá encontramos muitos parceiros, aprofundamos nossa pesquisa política, além da formação estética. Lá onde éramos minoria, pudemos efervescer nas rodas de estudos e grupos de discussões raciais. Além disso, tinha o peso de ser formado por aquela escola, que nos abriu algumas portas. Não podíamos ter nascido melhor. Vocês acreditam que o trabalho de Os Crespos consegue extrapolar essa dimensão de arte negra para ser ‘apenas’ arte que interesse às pessoas de qualquer etnia de um modo geral? Além de um sólido projeto político, Os Crespos têm uma reconhecida pesquisa estética. Fazemos nosso trabalho acreditando que as questões abordadas são de interesse de toda a sociedade. Claro que nosso trabalho de formação de público é direcionado a homens e mulheres negras, por uma questão histórica de apartamento dessa população das artes em geral. E também sabemos que provavelmente muitas pessoas não se interessam em participar das discussões públicas que propomos. Tudo isso é reflexo da nossa sociedade doente de racismo. E como isso é visto e recebido pelas pessoas? A construção do espetáculo “Além do Ponto” partiu da perspectiva do impacto da escravidão na forma de amar da população brasileira, mostrando um casal em separação que tenta entender suas dificuldades. A peça se desdobra nos desvelamentos das questões que permeiam um sistema de dominação que os envolve. O grupo encontrou diversas dificuldades para figurar o negro sob a ótica da afetividade. Pouco se fala sobre o tema, e suas relações são bastante complexas. O espetáculo construído se mostrou apenas como um pontapé inicial para uma investigação mais profunda sobre a política dos afetos. A cia decidiu, então, criar uma trilogia, na qual cada espetáculo investigará as relações afetivas sob uma particularidade. E esta se mostra a missão mais árdua, vivida até hoje pelo grupo: escavar no lugar mais privado das pessoas negras um retrato que ao mesmo tempo mostre suas dores e revele seus sonhos. Lucélia, além da questão do teatro negro, me parece que existe uma questão anterior ou tão importante, que é a presença da mulher nas artes. Ainda hoje, os diretores e os principais encenadores reconhecidos por seu trabalho são homens. Como é fazer teatro sendo mulher e negra? Ser mulher e negra me condiciona a enfrentar muito mais barreiras para conquistar o reconhecimento do meu trabalho. Eu falo dessas questões, luto por elas, esta é minha condição no mundo.

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