Para celebrar Verdi

“Um Baile de Máscaras” comemora os 200 anos do “pai da ópera”

iG Minas Gerais | Priscila Brito |

NETUN LIMA DIVULGACAO
Ópera reconstitui a corte Sueca do século XVIII e resgata versão censurada pelos italianos
  Nem o próprio Giuseppe Verdi (1813– 1901), autor da ópera “Um Baile de Máscaras” e homenageado da vez pelos 200 anos de seu nascimento, teve a oportunidade de ver sua obra tal como os mineiros verão a partir da próxima quinta-feira (31), no Palácio das Artes, em montagem com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, sob regência de Marcelo Ramos, 13 solistas, o Coral Lírico de Minas Gerais, a Cia. Sesc de Dança, Orquestra de Cordas e Banda da Orquestra de Sopros da Fundação de Educação Artística.    A ópera em três atos estreou no Teatro Apollo, em Roma, em 1859, muito diferente daquilo que Verdi e o libretista Antonio Somma haviam inicialmente concebido. Originalmente batizada de “Gustavo III” (1746-1792), a obra é baseada na história do monarca sueco do título. O foco era a paixão proibida do rei por Amélia, mulher de seu amigo e secretário Renato, aliada a uma conspiração da corte que culminou em seu assassinato – e é este o enredo que será apresentado pela primeira vez na cidade, apesar da ópera ter sido encenada outras duas vezes na capital.    A prática comum de censura na Itália pré-unificação, que obrigava que os libretos fossem submetidos à análise e aprovação das autoridades locais antes da montagem do espetáculo, fez com que uma versão distante da intenção original de Verdi fosse adotada, por muito tempo, como a versão tradicional da ópera.    O assassinato de um rei, mesmo sendo um fato real, era ofensivo demais para toda uma Europa dominada por monarcas. Uma tentativa de assassinato de Napoleão III durante os ensaios da ópera só fez agravar a interferência dos censores: das 884 linhas do libreto original, 297 foram alteradas de alguma forma.    O rei Gustavo virou o governador Ricardo, e a corte sueca foi substituída por uma colônia inglesa em Boston, nos Estados Unidos. Nascia a versão censurada, renomeada “Um Baile de Máscaras” – foi esta a versão apresentada no teatro Francisco Nunes, nos anos 1950, no Palácio das Artes, em 1977, e pelo diretor Fernando Bicudo no fim dos anos 1980, no Rio de Janeiro e em São Paulo.    Realizando um sonho que acalenta desde então, é o próprio Bicudo quem vai dirigir a versão original, ambientada na Suécia, mas que mantém o nome adotado após a censura. Foi sugestão sua à Fundação Clóvis Salgado resgatar a intenção original de Verdi. “Toda a trama tem muito mais sentido. Você tem uma percepção melhor da composição de Verdi”, diz ele sobre a ópera, um marco no conjunto da obra do italiano. “É a obra de transição e do amadurecimento da composição musical de Verdi. É uma ópera em que houve também uma evolução no tratamento que ele deu à orquestra”, explica.    Tributo Além de um resgate da composição original de Verdi, ao recolocar a corte sueca no centro da trama, esta montagem de “Um Baile de Máscaras” também é, segundo Bicudo, um tributo ao monarca Gustavo III, figura muito menos recorrente que outros reis europeus nos livros de história adotados no Brasil, mas fundamental para o seu país e exemplar. “Ele foi, na minha avaliação, o governante que mais contribuiu para a educação, arte e cultura de seu povo em toda a história. Isso explica porque que os países escandinavos têm um IDH tão elevado”, argumenta o diretor.   Dando uma aula de história, Bicudo conta que Gustavo III assumiu o trono sueco em meio a um cenário de corrupção. Venceu guerras e adotou medidas progressistas, o que lhe rendeu popularidade. “Ao invés de dar à nobreza os percentuais do orçamento aos quais ela tinha direito, ele pegou essa verba e aplicou na educação, na arte e na cultura”, completa. O diretor lembra que também foi Gustavo III quem fundou o Teatro Nacional, a Ópera Real Sueca, o Balé Real Sueco e a Academia Sueca, responsável pela entrega do prêmio Nobel desde 1901. “Isso é importante para termos a percepção do desenvolvimento de um povo e saber que a raiz dessa sociedade super desenvolvida foram os investimentos feitos na educação e na cultura”, defende.   O dono da festa, porém, ainda é Verdi, a quem será prestado o tributo maior a partir de quinta (dia 31). “Ele estabeleceu sua própria escola, é o pai da ópera e considerado o maior compositor do gênero. Alguns dizem que é Wagner, mas nenhum compositor influenciou tanto a ópera. Quando se fala em ópera, você pensa em Verdi, ele é sinônimo disso”, conclui Bicudo.   Um Baile de Máscaras, de Giuseppe Verdi Grande Teatro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, 3236-7400). Dias 31/10 (qui), 2/11 (sáb), 6/11 (qua), 8/11 (sex) e 9/11 (sáb), às 20h30. Dias 3/11 e 10/11 (dom, às 19h. R$ 70 (inteira). 

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