Olhar atento aos detalhes

Em sua primeira visita ao Brasil, Babette Mangolte comenta sobre sua produção que pode ser vista em BH

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Mariela guimarães/ O TEMPO
Babette Mangolte, artista, fotografa e cineastra franco-americana inaugura mostra temporária no Inhotim
Para a maior parte do público interessado em cinema autoral, Babette Mangolte, 72, pode representar uma importante referências atrelada a outros nomes, como as cineastas Chantal Akerman, Sally Potter e Yvonne Rainer, dentre outros. Ao lado de cada uma delas, a francesa emprestou o seu olhar atuando na direção de fotografia, área em que é bastante reconhecida desde a década de 1970. Embora sua produção individual seja talvez menos conhecida aqui, parte dela ganha agora visibilidade inédita na capital em nova exposição montada na galeria Mata, inaugurada na última quinta-feira, em Inhotim, e na mostra de filmes que ocupa o Cine Humberto Mauro nos dias 1, 2 e 3 de novembro. Hoje e nos dias 29 e 30 deste mês, parte do seu longa-metragem “Four Pieces by Morris” (1993) também pode ser vista no projeto Cinema de Artista, no Memorial Minas Gerais–Vale. Com curadoria de Babette, tal programa abarca ainda produções de Robert Frank & Alfred Leslie (“Pull My Daisy”), Stan Brakhage (“Prelude: Dog Star Man”), além de Bob Fleischner e Ken Jacobs (“Blonde Cobra”). Já a retrospectiva na sala de cinema do Palácio das Artes vai exibir apenas títulos dela. “Foram selecionados desde os primeiros filmes que eu produzi, os quais são muito importantes para a minha trajetória, até alguns mais recentes, como ‘Yvonne Rainer RoS INDEXICAL’. Esse aponta a minha relação com a dança, que é algo recorrente no meu trabalho”, diz Babette Mangolte. Em frente à galeria que expõe suas criações em uma ampla sala, na qual estão abrigadas fotografias, instalações e filmes, a artista recordou o seu encantamento com a cena artística nova-iorquina logo que se mudou para a cidade 44 anos atrás. Naquela época, após se formar, como a primeira mulher matriculada no curso da L’Ecole Nationale de la Photographie et de la Cinematographie, em Paris, ela foi para os Estados Unidos atraída pelos trabalhos experimentais de Jonas Mekas, Stan Brakhage (1933- 2003) e Michael Snow, que não chegavam à França. “Eu queria descobrir aqueles filmes e as pessoas que os faziam. Eu havia ouvido falar e tinha lido sobre eles, mas nenhuma daquelas produções eram distribuídas onde eu morava. Então, resolvi ir para Nova York e lá eu descobri o teatro, a dança, as artes performáticas. Tornei-me, assim, amiga de Richard Foreman e Yvonne Rainer. Embora Foreman não fosse um cineasta, ele gravitava em torno de pessoas como Jack Smith (1932-1989), Andy Warhol (1928-1987) e Michael Snow”, conta. Vivência. Enquanto buscava se aproximar dos diretores vanguardistas que admirava, Babette registrava a sua experiência em Nova York, fotografando tudo em preto e branco. Isso gerou uma vasta série de imagens e um precioso arquivo que oferece ao público atual diversas perspectivas do cenário cultural em ebulição naquele momento. Atores encenando peças do dramaturgo Richard Foreman não por acaso aparecem em várias das suas fotografias expostas em Inhotim. De acordo com a artista, o teatro de Foreman, bastante próximo da linguagem da performance e do que se convencionou chamar como gênero pós-dramático, lhe parecia estimulante porque tinha uma afinidade muito grande com os filmes e as artes visuais daquele contexto. “Richard, como outros autores, confrontava a plateia em termos visuais, confundindo, às vezes, a própria audiência. Ele lançava uma luz que ia direto na face das pessoas e isso, quando eu fotografava, dava origem a efeitos muito interessantes. Eu achava aquilo tudo muito fascinante. A maneira como ele produzia suas peças me parecia muito próxima da estética dos filmes”. Foi também em Nova York que Babette conheceu Chantal Akerman, com quem rodou o longa-metragem “Jeanne Dielman”, em Bruxelas, em 1975. A produção que narra a rotina de uma mulher que se alterna nos papéis de mãe e prostituta para sustentar a casa é ainda hoje conhecida como a obra-prima de Akerman. Babette recorda que o diretor Marcel Hanoun (1929- 2012) foi quem a aproximou de Chantal quando esta chegou a Nova York. “Ele disse que tinha uma amiga que morava lá e passou o meu telefone para Chantal. Eu ainda não falava inglês tão bem e foi um alívio poder conversar com alguém em francês. Nos tornamos muito próximas e por causa do movimento feminista em voga na época, as mulheres queriam trabalhar juntas. Não só por esse motivo, mas por uma questão de afinidade, desenvolvemos uma parceria muito interessante”, afirma. “Não que fôssemos contra os homens, mas nós percebíamos que havia uma linguagem a ser explorada e esta não poderia ser apenas aquela que reflete a figura do pai. Deveria surgir algo que viria da interação entre as mulheres”, conta Babette. Em relação aos colegas homens, ela acredita haver uma diferença bastante sutil quando se está atrás das câmeras. “Como mulher vejo detalhes que os homens não enxergam. É uma sensibilidade que tem muito a ver com uma experiência de vida”, conclui a artista.  
  • Filmes da mostra Babette Mangolte 1/11 17h – “The Cold Eye”; 19h – “Four Pieces by Morris”; 21h – “(Now) or MaintenantEnter Parentheses” / “What Maise Knew”; 2/11 / 16h – “Calico Mingling”/ “Watermotor”“Yvonne Rainer: AG INDEXICAL with A Little Help From H.M.”/ “Yvonne Rainer RoS INDEXICAL”; 18h – “The Sky on Location”; 20h – “The Camera”; 3/11 16h – “(Now) or Maintenant Enter Parentheses” / “What Maise Knew”; 18h – “The Sky on Location” ; 20h – “Les Modeles des Pickpocket”. Local: Cine Humberto Mauro (av. Afonso Pena, 1.537, Gratuito).
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