Amor sem medida

iG Minas Gerais |

Eu não a conheço. Como a maior parte de vocês, só a vi pelas imagens das emissoras de TV. Tem belos cachos e, imagino eu, um sorriso lindo. Aos 4 anos e 5 meses, já deve falar fluentemente e fazer muitas perguntas. Provavelmente, conhece bem as letras e sabe até identificar as que formam o próprio nome. As cores, então, nem se fala. Já pode se vestir sozinha, correr e saltar pela casa. Apesar de tanto desenvolvimento, a pequena Duda ainda é frágil, precisa de amor. Não faltará afeto à garotinha. A dúvida em questão é de onde ele virá? Da família biológica que busca a devolução da menina ou dos pais adotivos que haviam conquistado a guarda provisória? Quem dera existisse um aparelho capaz de medir o tamanho do amor... Certamente, decisões judiciais não seriam baseadas apenas nas leis e se tornariam menos dolorosas. Enquanto essas linhas se construíam, o caminho de Duda seguia pendente, mas me fazia refletir sobre outras histórias. Como a de um casal que conheci. Vive em Venda Nova. São cinco filhos. O mais velho tem 14, o mais novo, apenas 1. Só o pai trabalha. A casa tem dois quartos, banheiro, sala pequena e cozinha. Tudo muito apertado, tão apertado que nem cabe lá tanta felicidade. Tem briga, é claro. Muitas. Sempre falta dinheiro, mas – como diz o patriarca – onde come um, comem sete. Mas sobra amor. E ele tem bastado. As crianças nunca vão estudar numa escola privada. E quem vai me garantir que não serão bem-sucedidas? Acho que pobreza, então, não pode ser o argumento contra a família biológica. Maus-tratos, sim, têm peso de ouro, e com razão. Mas precisa ser identificado adequadamente. Isso porque casos de depressão e alcoolismo estão em muitas famílias das quais gente a beça “sobreviveu”, sem distorções. Onde fica, então, o discurso da segunda chance? Não tenho resposta, porque tudo tem dois lados. A adoção é um gesto de amor imensurável. Livre e especial. Nelas, os filhos não nascem do ventre, mas de um encontro. O amor pode ser concebido só na troca de um olhar. Talvez em um toque. Carolina define como a maior prova de afeto que já recebeu. Hoje, aos 25 anos, se emociona ao falar dos benfeitores. Foi adotada pelos patrões da mãe, empregada doméstica, que a deixou na casa onde trabalhava. Foi crescendo ali, sem guarda legal e entre ameaças da mulher que tentava extorquir seus guardiões. Já tinha 15 anos quando a situação foi, de fato, legalizada, pouco antes da morte do pai adotivo – o único pai que conheceu. A mãe, hoje com quase 80 anos, recebe o título de melhor companheira. Deu estudo, valores e fé. “Renovou minha chance”, diz a jovem. Então, como não entender a luta do casal com quem Duda vive há dois anos e meio? São os únicos pais de quem a garota se lembra até então. Foi tirada muito cedo daqueles que a geraram. Dois anos não são dois dias. É tempo bastante para fortalecer laços. Exemplos de vida podem estar em simples imagens. Aconteceu comigo ontem enquanto observava as últimas postagens da minha página no Facebook. Uma amiga da faculdade, a Lu Rocha, postou a foto da filha com a seguinte legenda: “Felicidade tem nome...”. Não demora muito para olhar e concluir: foram feitas uma para outra. Mãe e filha ali se completavam. Ninguém é capaz de dizer que aquela belezura não é da Lu. O amor estava lá, eternizado. Então, que Deus ajude o desembargado Belizário de Lacerda. Por enquanto, está nas mãos dele, no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o caminho de Duda. Quem dera pudesse saber como bater esse martelo. 

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