Bardo do bar: Sapucaia

iG Minas Gerais |

Hélvio
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No canto que religiosamente ocupa, como se fosse uma antiguidade decorativa ou a pedra fundamental do lugar, Canjica, como o chamam, provavelmente por causa do rosto marcado pelas espinhas, come melancolicamente biscoitos Maizena que retira de uma sacola de supermercado posta sobre o colo. Carlão, que está sempre de pé ao balcão, disposto a puxar conversa com quem lhe dê trela, gasta boa parte de seu tempo provocando o rapaz, que, alheio a tudo, não rende conversa. Creio que para a maioria dos frequentadores do Sapucaia paira a dúvida se Canjica é surdo-mudo, se tem algum déficit cognitivo ou apenas é ensimesmado num grau exagerado. As duas mesas mais próximas da única porta, que dá direto para o passeio, estão invariavelmente ocupadas por Severo, um senhor de idade bastante avançada, com uns poucos cabelos brancos na cabeça e rugas abundantes, mas muito mais vivaz do que sua aparência faz supor, e Barão, apelido que lhe imputaram certamente por seu modo de se vestir, sempre de camisa social, gravata e os cabelos, também já brancos, impecavelmente penteados com fixador. Conversam muito entre si, apesar de cada um ocupar, sozinho, uma das mesas. Do lado de fora, a despeito da estreiteza da calçada, há quatro mesas de metal, dessas bem vagabundas, fornecidas por marcas de cerveja. Três delas costumam permanecer vazias, e a quarta, em uma das extremidades, está sempre ocupada pelo mesmo grupo de seis ou sete homens, dependendo do dia, todos aparentando mais de 60 anos, imersos em partidas de truco que parecem valer os bens mais pessoais ou valiosos de cada um, tamanha a empolgação e a energia que despendem com o jogo. Um deles sei que tem apelido de Vaca, outro, dono de uma gargalhada tonitruante, se chama Alberico, e dos outros eu não sei o nome. As duplas variam e quem está aguardando sua vez de se sentar à mesa de quatro lugares ou assiste calado à contenda em curso ou vai acompanhar na televisão de 20 polegadas os vespertinos policialescos nos quais está invariavelmente sintonizada ou vai jogar conversa fora com Vicente, o dono do Sapucaia. Vicente veio jovem de Unaí, no Noroeste do Estado, para a capital, a fim de estudar e trabalhar para o amigo de um padrinho, como atendente no mesmo bar que anos mais tarde assumiria. Nesse percurso, Vicente conheceu e se casou com Deusdete, teve dois filhos, hoje já adolescentes, e vem se mantendo aos trancos e barrancos graças à clientela, que é reduzida, mas de uma fidelidade inabalável. Não tarda e ele vai atender à Dona Berenice, que sempre passa no Sapucaia no mesmo horário, um pouco antes da seis da tarde, e pede, para levar, duas cervejas, um dos petiscos expostos na estufa sobre o balcão e eventualmente alguns cigarros picados. Não sei bem se a chamam de dona por respeito ou jocosamente, já que ela aparenta ter trinta e poucos anos e poderia ser, portanto, filha e, quiçá, neta dos fregueses habituais do bar. O perfil calipígio de Berenice magnetiza o olhar de todos, que, no entanto e mal disfarçadamente, a tratam com muita deferência, como uma comadre com a qual se vai à missa aos domingos. Berenice, que não é boba, sabe que atiça a imaginação dos velhinhos e sabe, ao mesmo tempo, que nunca será inconvenientemente assediada por nenhum deles. Ela se compraz disso. Situado desde que Vicente chegou do interior numa rua de calçamento esburacada e de pouco movimento, tangente ao cemitério da Saudade, o Sapucaia parece parado no tempo. A grossa poeira que reveste as garrafas dispostas nos pares de prateleiras pregadas nas paredes laterais reforça a impressão. O aspecto do lugar, despojado quase que ao ponto do desleixo, ornado aqui e acolá com quinquilharias resgatadas de entulhos, tem se mantido imutável ao longo dos anos. Os frequentadores regulares, todos moradores do bairro, com endereços mais ou menos próximos do Sapucaia, compõem o mesmo exíguo grupo. As conversas que têm entre si e com Vicente giram, dia após dia, em torno dos mesmos motes, futebol, crimes, política, novelas, com pouca variação. Penso com meus botões que, mais que um bar, o Sapucaia se assemelha à representação de um boteco clássico exposta em um museu de cera.

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