Gosto de infância

O sabor e aroma que encantam a criançada não deixam de ser apreciados também pelos adultos. A qualquer hora, vai bem degustar os preparos, sejam eles com cara de vó, para acompanhar o cafezinho, ou em superproduções para os eventos

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

De antigamente. Bolo de banana, um dos preferidos do chef André Boccato, é um dos destaques do livro “Bolo de Avó”, editado por ele
O cheiro de um bolo assando é inconfundível, registrado na memória afetiva como experiência marcante da infância de qualquer um. É provocante, multisensorial. Se a imagem do quitute crescendo no forno é das melhores de se ver e aguça a ansiedade pela hora de atacar, o aroma atiça a fome, já que ainda do fogão ele se espalha pela casa e, dela, pode ganhar a vizinhança. Desde os mais simples, para ser compartilhado em momentos em família, até as grandes comemorações, em que se torna indispensável, o bolo vai bem a qualquer hora, em qualquer ocasião. O folclorista Luis da Câmara Cascudo relata, em “História da Alimentação no Brasil”, que o primeiro bolo a desembarcar no país chegou na tarde de 24 de abril de 1500, trazido pelos portugueses. Oferecida aos índios, porém, a iguaria não agradou aos nativos, segundo consta nas cartas de Pero Vaz de Caminha. O bolo servido, chamado de fartes em Portugal (e ainda hoje comum por lá), tem recheio de amêndoa ou creme. Pouco tempo demorou até que o conceito de bolo fosse incorporado pelos brasileiros, sob influência portuguesa. Uma vez adotado, ganhou aqui ingredientes diferentes, adaptados aos costumes e ingredientes disponíveis. “No Brasil não havia trigo, então os primeiros bolos têm como base a mandioca”, diz o chef experimental e editor André Boccato, que se dedica ao assunto há pelo menos 25 anos. Boccato só lamenta que o hábito de preparar o bolo em casa esteja se perdendo em meio à rotina dos grandes centros urbanos. “A tendência é substituir o alimento feito em casa por coisas prontas, ou semiprontas. Cozinhar se transformou em um ritual de ostentação, querem receber os amigos em casa para mostrar que sabem fazer pratos incrivelmente elaborados, mas o bolinho, que é bom, quase não fazem mais. Esquecem o quanto é divertido ir com os filhos, ou os netos, para a cozinha e aproveitar o tempo doméstico. Bolo é terapia, que espanta os fantasmas. Para mim, funciona muito bem para descansar a mente”, afirma ele, que, não à toa, tem um livro cujo título é “Boloterapia”. Dos outros cinco livros que têm dedicados ao bolo, um dos mais queridos pelo autor é “Bolo de Avó”, em que ele visita receitas tão clássicas quanto o de fubá cremoso a até os sabores mais incomuns, como o bolo de abóbora e o fofo de requeijão. “Cada pessoa dá uma cara diferente ao bolo que prepara. Por mais que digam que a sobremesa é matemática, as receitas de bolo não precisam ser seguidas de forma tão rígida. Essa busca, esses experimentos, fazem muito bem”, diz o chef, que brinca que o objetivo dele é lançar um livro com cheiro de bolo assando. Como antigamente. Um bolo assim, “com cara de vó”, sem confeito nem recheio, é a pedida no Café Books e na Spiral com Café, ambos comandados pela chef Mariana Dornas. Ela prepara semanalmente mais de 50 bolos, com cerca de 15 sabores diferentes que se revezam nas casas. Os sabores vão desde o de cenoura com cobertura de chocolate, que agrada a praticamente todo mundo, a até criações exclusivas dela, como o bolo de damasco e os integrais, sucesso entre os mais preocupados com a saúde. “Faço bolo desde os 7 anos de idade, para mim tem essa coisa gostosa de infância. Acho perfeito para acompanhar um café, um capuccino. Muitos clientes pedem com uma bola de sorvete, que casa muito bem para ser servido em uma tarde quente, por exemplo. É um alimento versátil, que vale para toda hora, desde no café da manhã, até a sobremesa do almoço ou do jantar”, diz Mariana. Para ela, o segredo de um bom bolo, além da óbvia seleção de ingredientes de qualidade, é o cuidado com que ele é preparado. “Por ser uma receita fácil, muita gente faz de qualquer jeito, e por isso nem sempre fica bom. Bolo é delicado, até o jeito que é despejado na forma faz diferença. Aquela velha história de dizer que amor importa para fazer o bolo crescer é clichê, mas é verdade”, afirma a chef.  

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave