O Oscar próximo de Redford

Por sua atuação em “All is Lost”, Robert Redford, 77, está perto de conquistar sua primeira estatueta de melhor ator

iG Minas Gerais | Maureen Dowd |

FRED R. CONRAD
undefined
Sundance, EUA. Talvez pelo fato de ter interpretado a Morte no seriado “Além da Imaginação”, no começo da carreira, a mortalidade não o incomode. “Faz parte”, resume Robert Redford, impassível.   Ele não pensou em morrer quando fazia seu novo filme, o drama melancólico de J.C. Chandor, “All is Lost” que fala justamente sobre isso, mas, sim, em sobreviver. “O que me interessa é essa coisa que acontece com algumas pessoas, não todas, quando se chega a um ponto de ruptura”, explica ele, com a xícara de café na mão, no Owl Bar vazio. “Você passa por dificuldades, situações complicadíssimas e não há sinal de que o negócio vá melhorar… e é aí que a maioria desiste. No entanto, alguns não”. Foi o mesmo fator que o atraiu para uma história mais antiga, o longa de 1972 sobre um homem nas montanhas, no século XIX, lutando contra as forças da natureza: “Mais Forte que a Vingança”, filmado no Monte Timpanogos, exatamente onde estávamos sentados. “Você continua tentando simplesmente por não ter outra opção”. Como o drama de Wall Street de 2011, “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, no qual Chandor mostra uma firma nos moldes do Lehman tentando não cair, o taciturno “All Is Lost” (com estreia no Brasil prevista para fevereiro) é uma história existencial de horror sobre a tentativa de sobreviver ao pior momento da vida quando bate o pânico – nesse caso, um barco quebrado no meio do mar. A carreira de Redford é calcada no que ele chama de “caras intrinsecamente norte-americanos” que se levantam contra forças implacáveis: enfrentou os bancos e a agência de investigação Pinkerton em “Butch Cassidy”; índios e ursos em “Mais Forte que a Vingança”; um sistema político superficial em “O Candidato”; a máfia irlandesa em “Um Golpe de Mestre”; a CIA em “Três Dias do Condor” e “Jogo de Espiões”; Richard M. Nixon em “Todos os Homens do Presidente”; grandes corporações em “O Cavaleiro Elétrico” e seu adversário mais formidável de todos: Barbra Streisand em “Nosso Amor de Ontem”. Clima. Hollywood não tem espaço para homens mais velhos; mesmo assim, aos 77 anos, com chances consideráveis de emplacar um Oscar, Redford é o astro inegável de um filme que evoca o espírito elegíaco de “Velejando para Bizâncio”, de Yeats, um de seus poetas favoritos – que fala de “mares cheios de atum”, a aceitação da agonia do envelhecimento e o questionamento da alma se elevando acima do coração “acorrentado a um mísero animal ‘morrente’”. O próprio Redford gosta de escrever observações poéticas – e recitou uma de sua autoria: “Você olha para cima e percebe que o dia está lindo, as folhas voam e você começa a se sentir confiante. Fica cheio de si... até perceber que está babando”. Redford cresceu em Los Angeles, um garoto alucinado tentando escapar do pai, distante e difícil de agradar, o verdadeiro Rebelde Sem Causa que vivia entre as bebedeiras, os rachas e invasões às mansões de Bel-Air com um amigo. Eles formavam o Bling Ring (gangue que rouba joias de mansões milionárias) muito antes de a palavra “bling” (joia) se tornar popular. Desde cedo, Bob Redford era popular com as meninas, vencendo um concurso de Charleston aos 13 anos; por isso, os outros rapazes tinham inveja e ficaram cada vez mais “cruéis”. “Não demorou muito para os caras começarem a passar por mim, toda vez que eu estava com uma menina, e dizerem: ‘ARF! ARF! ARF!’ Eu percebia que a garota ficava incomodada até que finalmente um deles me explicou que ARF era a sigla de ‘Anti-Redford Federation’” (Federação Anti-Redford). “Fiquei chocado e muito magoado. A partir dali, me retraí. Virei um cara tímido, com medo de sair e me expressar, o que acabei fazendo através da arte”. Parceiro de longa data, Sydney Pollack disse que o grande atrativo do ator vem do toque sombrio por trás de sua beleza dourada. Apesar disso, foi criticado por não assumir papéis mais fortes e pesados ao longo dos anos, mas confessa ter se divertido como o galã das matinês. “Adorei trabalhar com a Jane, com a Natalie, com a Barbra”, afirma, referindo-se a Fonda, Wood e Streisand. “Adorava a linguagem corporal, o mistério, a química sexual”. Foi difícil, depois de anos como o bonitão da telona, passar um longa-metragem inteiro com Chandor filmando seu rosto, marcado pelo tempo, de tão perto que parecia ainda mais envelhecido? “Bom, deixa só eu esclarecer uma coisa: nunca me considerei bonito. Eu era um moleque sardento que todo mundo chamava de ‘cabeça de feno’”, afirmou ele.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave