A arte de viver a sós consigo mesmo

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Na semana passada, fui assistir a um filme que está dando o que falar entre os cinéfilos de plantão. “Gravidade”, em cartaz nos cinemas, caiu no gosto do povo e da crítica talvez pela novidade e ousadia de se produzir um longa de 90 minutos com mais de 90% das cenas no espaço. No filme do diretor mexicano Alfonso Cuarón, a pesquisadora Ryan Stone (Sandra Bullock) faz parte de uma equipe espacial, comandada pelo bem-humorado astronauta Matt Kowalsky (George Clooney). Enquanto mexem num telescópio, eles são avisados de que um acidente no espaço enviou destroços para a órbita em que estão. Ryan e Matt são atingidos, e o acidente faz com que eles vaguem pelo espaço à procura de alternativas de sobrevivência. São muitos planos-sequência de tirar o fôlego, imagens em 3D que realmente valem a pena o ingresso mais caro e aquela adrenalina improvável para um filme espacial. A partir daí você já pode me responder: o que você faria se ficasse solto, sozinho, à deriva no espaço, onde as opções para se safar dessa seriam restritas a uma única possibilidade: se agarrar à perseverança e ao mais forte instinto de superação? No meio do filme você já consegue a resposta. Só o mais puro e interno sentimento individual de sobrevivência te instiga a querer continuar, a buscar formas para reagir, a forçar a mais bruta vontade de prosseguir... Ninguém quer morrer, muito menos ter uma morte lenta, no meio do espaço sideral. No filme, a personagem de Bullock – que por sinal está muito bem no papel, esbanjando drama, vitalidade e um corpaço aos 49 anos – recebe ajuda do personagem de Clooney, que a direciona à saída daquele pesadelo. Por mais que Matt mostre o caminho das pedras à sofrida Ryan, ela está sozinha naquela gelada intergalática e depende só dela – e de mais ninguém – para sobreviver. É assim nos filmes, é assim na vida. Por mais amigos que tenha, por mais que a família o rodeie, a luta pela sobrevivência diária do acordar, estudar, trabalhar, se relacionar, conseguir, driblar, convencer, realizar, florescer, aparecer, ganhar, subjugar, cativar, dominar, querer, entusiasmar, vencer, conquistar é completamente sua... De mais ninguém! Rodeados de desconhecidos ou de pessoas que amamos e que nos amam, vivemos no nosso mundo, buscando os nossos ideais, nossas paixões e vontades individuais. Nas letras da canção “Tá Combinado”, imortalizada por Maria Bethânia e Gal Costa em épocas distintas, Caetano Veloso já poetizava: “Podemos ver o mundo juntos, sermos dois e sermos muitos. Nos sabermos sós sem estarmos sós”. Recebemos uma avalanche de influências em todas as épocas de nossas vidas, sentimos a presença de Deus e de nossos pais, mas nascemos, crescemos e morremos sós. Precisamos nos descobrir a cada minuto, vasculhar a nossa caixinha de surpresas diárias e viver de forma única no mundo. Em certo momento do filme ou da vida, Ryan ou nós mesmos quase desistimos, mas, como somos responsáveis por cada ato de nossas vidas, ninguém vai lutar para te reerguer se não for você e sua fé em algo maior que a vida, maior que a morte, maior que a eternidade. Definitivamente, não estamos sós, mas nos conhecemos e sabemos que somos o que somos por uma única razão: nós mesmos.

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