Sessão de terapia telefônica

Guilherme Arantes, um dos maiores nomes do pop nacional, faz show de seu novo disco “Condição Humana”, hoje

iG Minas Gerais | THIAGO PEREIRA |

Pedro Matallo/divulgação
Guilherme Arantes foi buscar no passado os elementos fundamentais de sua verve musical
Guilherme Arantes, que se apresenta hoje no Sesc Palladium, tem muito a dizer. Diante de uma simples primeira pergunta do seu interlocutor (“O novo disco tem essa proposta ‘vintage’ intencional?”), ele dispara por quase 60 minutos – com breves, brevíssimas interrupções do repórter –, falando de tudo, com pouquíssimos filtros, num tom que muitas vezes se equilibra entre o desabafo e o puro exercício verborrágico. Mas ele mantém a afinação e o senso de harmonia que tanto caracterizam sua música. Esse mesmo senso talvez não seja aplicável em sua carreira. E talvez seja o silêncio fonográfico a que se submeteu – ou do qual foi submetido, depende do ponto de vista – que justificam o monólogo do músico nesse divã telefônico. Se na década de 1980 ele chegou a emendar cinco discos em sequência, de 2000 para cá registrou apenas três discos.“ ‘Condição Humana’ (lançado este ano) é um disco que marca o início da minha desvinculação com selos e produções bancadas, em que você pode esperar algo de alguém. Para esse disco não esperei nada de ninguém, e as músicas puderam ser escolhidas sem palpites, sem interferências, com liberdade”, diz. Desamarrado, o músico partiu em uma espécie de viagem rumo ao próprio ser, que deliciaria Freud ou Theo Ceccato. “Quem sou eu? Sou bossa-novista, neo-bossa, será que tenho condições de continuar me aventurando em ritmos como funk, hip hop? Sou mesmo MPB, é justa essa classificação? Fui descobrir que não sou um monte de coisa, que sou limitado. E que o melhor de mim está no final dos anos 1970”. A regressão é um caminho usual nos trajetos psicológicos, e foi no início de sua carreira, quando ainda era uma espécie de folk singer, que trocou o violão pelo piano (a capa de seu ótimo primeiro disco solo, andando no centro de São Paulo, lembra demais a imagem de Dylan na arte de “The Frewheelin’ Bob Dylan”), ainda sem a fissura eletrônica que tomaria conta de sua música. “Sem sequenciadores, sem computadores, eu era bom de banda, de juntar músicos. Demorei para perceber isso e fui me afastando de onde eu era imbatível, na canção estruturada no piano”, argumenta. Piano que ele garante tocar com mãos de pedreiro. “Tenho a mão grossa, musculosa, gosto de marcenaria. Isso me traz uma vitalidade, um vigor que me diferencia totalmente do Silva, do Marcelo Jeneci, do Henrique Portugal”, enumera, citando colegas de instrumento. “Sou mais para Billy Joel, com pegada. Não sou um cara delicado, posso me tornar delicado e tals. Mas tenho que fazer um esforço. Sou toscão”. Guilherme Arantes toscão, veja só. “Isso marcou muito minhas músicas da virada dos anos 1970 para os anos 1980, onde defini um estilo Guilherme Arantes, do ‘Lindo Balão Azul’, do ‘Planeta Água’. Esse período meio que acaba no ano de 1984, onde entra o ingrediente da eletrônica”. A partir daí ele emplacou sucessos como “Cheia de Charme”, “Loucas Horas” e “Coisas do Brasil” e se eterniza como símbolo pop absoluto. O que significa, em termos nacionais, frequência absurda nas rádios, nas novelas e em programas tipo “Globo de Ouro”. Mas ele não renega o período. “Se eu sentar e tocar ‘Cheia de Charme’, só ao piano, consigo transformá-la em algo muito palatável. Mesmo durante o período hitmaker, de discos por contrato, consegui pontuar com coisas muito boas”, ele garante. A questão é que este é o período que marca a transformação do “toscão” para, nas palavras dele, um cantor “aboiolado”. Na visão dos outros, vale reforçar. “Fui muito maltratado pela crítica, soava muito feminino numa era predominantemente masculina. Uma visão como a minha, do afeto amoroso, não era muito bem- vinda no território da testosterona, militarizado do rock”. Durante os anos 1990, Arantes ficou muitas vezes no escaninho do brega, ressaltado apenas nas festas do tipo revival. Mas a década seguinte, como nos lembra o cantor, serviu para recuperar certa sensibilidade feminina, de forma transgressora até. “Aconteceu aqui e em todo o mundo, afinal somos o país das cantoras. Surgiram bandas de classe média urbana, aculturadas, que mostravam um olhar mais feminino sobre a alma humana. Para o roqueiro histriônico, soava como boiolagem, mas muita gente respondeu a isso”. E o piano voltou a ser cool. “Pega o Chris Martin: é Guilherme Arantes descarado! Parece para caralho! O Keane... Fui vendo que talvez eu estivesse à frente do meu tempo, e esses descompassos são normais”. Vingado, portanto? “Não guardei tanto rancor. Me sinto satisfeito, e a passagem do tempo foi muito gostosa”. continua na página 2  

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