Surge uma outra questão

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Não deu para ver o resgate dos beagles e não lembrar de Luke, cão da mesma raça, encantador e dócil, da minha amiga Edna. Não deu para não identificar naqueles olhinhos pidões e carentes daqueles beagles os de Luke, mas também os de Paco, Oddy, Cachecol, Georginha, Cafofinho, Tobias, Cora, Duda, Zuzi, Sofia, Flor, Joy, Bolinha, Brisa, Tao, Zé, Raul, Elvis, Alegria, Charlie e de tantos outros cachorros que hoje fazem parte da minha vida e que, sei, são seres fundamentais na vida de seus donos, tanto que alguns se sentem pais e mães desses bichinhos. Assim, foi como se aqueles beagles representassem todos os cachorros do mundo e senti, quando vi o vídeo do resgate, uma sensação de orgulho por aqueles homens e mulheres que correram riscos – de vida, inclusive – para salvar os bichos. Soube que os laboratórios usam beagle para testes por ele ser de porte médio, dócil e de fácil manejo. Pensei no Paco, que tem todas essas características. Mas ele é vira-lata e, portanto, está a salvo de cientistas que buscam uma raça pura para seus experimentos. Não tenho informações de quantos medicamentos foram descobertos com o sacrifício animal, mas há cientistas, não militantes da causa, que dizem que esses testes são inócuos; o que pode salvar um animal, eles dizem, não necessariamente cura um humano, ou pior, pode até matá-lo, e vice-versa. E que testes utilizando o projeto genoma seriam muito mais eficientes do que aqueles que usam animais. A invasão do Instituto Royal serve, portanto, para gerar o debate sobre essa questão, não apenas do ponto de vista da ética, mas da eficiência desses experimentos. Mas há outra questão, que acabou aflorando junto com essa importante discussão, que é sobre a adoção de animais. A página criada no Facebook Adote um Animal Resgatado do Instituto Royal recebeu em dez horas 180 mil “curtidas” (seguidores online). Hoje, ela já atraiu 380 mil pessoas. Evidentemente nem todas essas 380 mil pessoas estão interessadas em adotar os beagles, mas muitos sim. Tenho certeza de que os cães resgatados do laboratório serão facilmente adotados. Por quê? Porque eles são beagles. Isso me lembra a labuta da minha amiga Ivana, cuidadora de animais, que vive resgatando cães abandonados por aí. Há dois meses, pelo menos, ela faz campanha para que adotem Zacarias, um filhote de pelos pretos, lindo! Mas... ele é vira-lata. Lili, do mesmo planeta de Ivana, passa pela mesma dificuldade. Um exemplo contrário aconteceu com Isabela, outra que tem um belo currículo de resgate de animais abandonados nas ruas. Um rotweiller apareceu na praça em que frequentamos e acabou atacando um cachorrinho. Como ele estava sozinho, Isabela resolveu levá-lo para um hotelzinho e começou uma campanha para, primeiro, ver se encontrava o dono e, depois, para colocá-lo em adoção. Em questão de dias, já tinham várias pessoas interessadas nele. E, em uma semana, ele ganhou uma nova família. Se fosse um vira-lata, tenho certeza, ele não teria a mesma sorte. Seria bom se toda essa solidariedade em relação aos beagles se estendesse também aos Zacarias que andam por aí. Eles não estão na mídia, mas também precisam de um lar decente. 

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