Biografias: quem tem medo do debate amplo e profundo?

iG Minas Gerais |

Quando o eleitorado brasileiro foi chamado às urnas no plebiscito entre parlamentarismo e presidencialismo, participei – como presidencialista (crítica, embora, do presidencialismo brasileiro), tomando sempre como lema travar o que a mim se afigura ser, de fato, um “amplo e profundo debate” sobre o tema. As discussões eram sempre demoradas, mas nos obrigava, a mim e aos meus adversários, a tentar oferecer ao público os melhores argumentos para que o participante pudesse, enfim, tirar sua própria conclusão. Nunca usei o truque de liquidar os defensores do parlamentarismo apenas perguntando à plateia se alguém gostaria de ter como chefe de governo um deputado oriundo da maioria congressual do momento. Essa mera pergunta desmontava, como hoje desmontaria, o defensor do parlamentarismo. O mineiro acredita piamente que “elogio em boca própria é vitupério”. Sigo esse axioma, mas, em face do atual debate sobre as biografias, considero que fui à época demasiadamente cuidadosa na abordagem de um grande tema. O bate-boca propiciado por Paula Lavigne num programa de televisão dizendo-se interessada em um debate “amplo e profundo” sobre a polarização entre os que defendem a liberdade de publicação de biografias, sem consentimento prévio, e os que pleiteiam, como ela, que sejam protegidos os direitos do biografado, me chocou. Lavigne usou, no meu sentir, de um golpe baixo e preconceituoso ao perguntar, à queima-roupa, a uma jornalista se ela era gay (sic) assumida e qual era o nome de sua namorada. Desliguei a TV. Não vou esgrimir argumentos jurídicos, comparando artigos da Constituição e do Código Civil: isso será amplamente discutido não apenas na audiência pública que a relatora da matéria no STF está, em boa hora, convocando, como será motivo de acirrado exame no pleno do próprio tribunal, no julgamento da ação direta de inconstitucionalidade proposta pelos integrantes da Associação Nacional dos Editores. Quero apenas repudiar o comportamento de Lavigne contra alguém que não tem vida pública (ou a tem módica) e que, portanto, pode-se supor, jamais será biografada por quem quer que seja. Integrantes do próprio grupo Procure Saber (defensores da licença prévia) fazem largo uso do Twitter, do Facebook, de blogs e outras redes. Quem não se interessa por um gênio como Chico Buarque; por Caetano de “Podres Poderes”– uma das melhores avaliações sobre a política praticada nessa América católica; e pelo ex-ministro Gilberto Gil do tocante “Cálice” e do alegre “No Norte da Saudade”? E todos eles expõem – uns mais, outros menos – suas vidas privadas, escolhendo os melhores ângulos daquilo que chamo as contradições inerentes a cada um de nós, seres humanos. Por que alguém que também tem de ganhar a vida com seu talento não pode sobre eles escrever? Que os excessos sejam punidos, mas nunca impedida a publicação de uma biografia. Para o bem de um dos maiores valores da humanidade: o direito ao conhecimento sobre quem fez ou faz história.

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