O eterno sonhador Bertolucci

Documentário sobre o cineasta italiano ressalta momentos de intensa paixão do realizador pela sétima arte

iG Minas Gerais | ludmila azevedo enviada especial |

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São Paulo. Ainda que os grandes atrativos da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo recaiam sobre os longas de ficção, há na seleção exemplares imperdíveis de documentários. “Bertolucci sobre Bertolucci” é um deles. Dirigido por Luca Guadagnino e Walter Fasano, o filme reúne entrevistas do diretor em canais de TV, além de depoimentos sobre seu processo criativo em making-offs. Bernardo Bertolucci começou como poeta, seguindo os passos do pai, Attilio. Numa das cenas, aos vinte e poucos anos, ele diz que o cinema foi o caminho para não viver à sombra de um grande artista. Ainda jovem, Bertolucci conta uma curiosa passagem de sua vida: quando uma jornalista italiana o procurou para entrevistá-lo sobre suas primeiras produções, disse que só responderia em francês, pois essa era a linguagem do cinema. Influenciado nos primeiros tempos pela Nouvelle Vague, o diretor conta sua relação com Godard e Truffaut, defende Roberto Rosselini como um dos principais diretores da Itália, faz críticas ao neo-realismo e à indústria de Hollywood. Contraditoriamente, se diz fã de musicais, gênero tipicamente norte-americano. Ele também revela suas ligações com o marxismo e a psicanálise. São contradições que tornam o personagem Bertolucci tão rico e encantador. No filme, ele comenta sobre alguns de seus grandes clássicos, como o à época controverso “Último Tango em Paris” (1972). O diretor desenvolve relações tão intensas e apaixonadas com os atores que dirige que chega a romper com eles. Foi o caso de Marlon Brando. Bertolucci também ficou um período sem conversar com Godard quando o francês se aliou ao pensamento radical da esquerda. O italiano era, então, filiado ao partido comunista, mas evitava extremismos. Decidiu, ao invés de um cinema panfletário, produzir um cinema mais próximo das massas. O lado pop de Bertolucci vem com o premiado “O Último Imperador” (1987), que levou nove estatuetas do Oscar. Inserido na indústria, ele reponde a algumas perguntas bem incisivas. Esse é o grande feito do documentário: o entrevistado que não se esquiva diante de entrevistadores, que não estão ali para fazer a “política de boa vizinhança” tão comum nos talk-shows contemporâneos. “Bertolucci sobre Bertolucci” traz momentos engraçados, comoventes e tensos nas trocas entre o realizador e os jornalistas. E fica a pergunta se a estrutura criada pelos diretores poderá ser referência para novos cineastas e novos jornalistas. Em tempos de junkeds com artistas (mini-exclusivas que duram dez minutos), é impossível estabelecer o jogo de perguntas e respostas interessantes. Também, aí com doses de nostalgia, não há tantos nomes com a potência do eterno sonhador Bernardo Bertolucci para se construir uma história como essa. A jornalista viajou a convite da Mostra de São Paulo.     

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