Em busca de um lugar ao sol

Espetáculo “Nômade” é o terceiro de trilogia que discute os movimentos do homem nas grandes metrópoles

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Marco Aurélio PRATES
Próprio. Companhia estabelece estilo próprio ao unir múltiplas linguagens e por conta de sua caracterização essencialmente urbana
“O homem que pensa, trai. Porque ele só pode garantir que continuará pensando”. Assim o dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht, falecido em 1956, definia o sujeito pensante. O artista deixou contribuições marcantes para o teatro feito nos dias de hoje. Dentre elas, talvez a mais famosa seja o “Efeito V”, também conhecido como “Distanciamento” ou “Estranhamento”. Pois é justamente nesse exercício de traição do próprio pensamento que o coreógrafo Mário Nascimento concebeu o espetáculo “Nômade”, em comemoração ao 15 anos da companhia de dança que leva seu nome. A estreia será hoje à noite, no Sesc Palladium. Trata-se do terceiro espetáculo de uma trilogia que passa por “Escapada” e “Território Nu”. “Os espetáculos se contradizem. Primeiro, queria falar da necessidade de sair. As pessoas sufocadas nessa metrópole conturbada, esse mundo deserto; depois, ‘Território Nu’ tratou da demarcação do espaço. Agora, com ‘Nômade’, a intenção é abordar o não lugar desse cidadão do mundo, sem destino definido”, explica Mário. O coreógrafo esmiuça uma clara relação entre as temáticas da trilogia e os momentos atravessados por sua companhia e por ele próprio: “Lá atrás, ‘Escapada’ falava de minha saída de São Paulo e minha vinda para Belo Horizonte, a decisão mais acertada da minha vida; o segundo espetáculo da série era nossa companhia buscando e demarcando seu próprio espaço no cenário da dança na cidade e no país; agora, somos nós, nômades em busca do mundo e do nosso desejo de circular o máximo possível com nosso trabalho”, diz ele. Ambientes. Mário comenta que – ao contrário do que se costuma pensar quando se compara a produção artística na capital paulista e Belo Horizonte –, aqui, segundo ele, é o principal polo da dança no país. Ele justifica tal pensamento citando as bem-sucedidas companhias de dança da cidade, como o Grupo Corpo, Primeiro Ato, Mimulus etc. “A dança feita aqui começou a chamar a minha atenção. Pensei: quero fazer parte disso, quero sair de São Paulo. Havia (há) em Belo Horizonte uma efervescência”, afirma. Sobre o desejo “nômade” de sua companhia, Mário relata as quase 200 apresentações feitas nos últimos três anos graças ao projeto Palco Giratório do Sesc. “É um tipo de situação que coloca o artista em xeque. Uma turnê pesada, difícil. Tanto que tivemos algumas baixas na companhia. Mas considero isso normal. Sempre digo a eles, é a possibilidade de fazermos justamente o que queríamos: circular com nosso trabalho sem depender de convites pontuais”, explica Mário. MULTIDISCIPLINAR. A companhia Mário Nascimento trabalha com uma linguagem muito específica que, basicamente, incorpora recursos das artes cênicas, poesia, música, canto e voz, e também da dança de rua, do teatro físico e das artes marciais, sustentada pelas conexões entre música e dança. Mário destaca que, apesar de seu papel de decisão naquilo que fica e sai dos espetáculos, como coreógrafo do grupo, o trabalho é muito influenciado pelo material que os bailarinos levam à cena, além da presença de dois elementos fundamentais: “Primeiro o Fábio Cardia. Não tenho certeza, mas acho que somos a única ou uma das poucas companhias que pode contar com um músico residente sempre presente no processo de criação; depois, a Rosa Antuña, dona de várias habilidades, que tem essa relação com o teatro, com o texto. Algo que enriquece demais nosso trabalho”, avalia ele. Agenda O quê. Estreia do espetáculo “Nômade”, da Companhia Mário Nascimento Quando. Hoje, às 20h Onde. Sesc Palladium (rua Rio de janeiro, 1.046, centro) Quanto. R$10 e R$5 (meia entrada)  

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