A rosa do povo

iG Minas Gerais |

Tudo o que uma flor quer de seu responsável é cuidado. Não, ela não pede admiração, minutos de contemplação ou gestos de embevecimento. Uma flor só quer viver, e beleza viva, como qualquer ser vivo, morre sem alimento, sustento e atenção. Acontece que nossa flor, a flor do povo, nem carrega assim uma beleza inconteste. Não nasceu no solo mais fértil, mas empedrado, ressequido, nem das mãos mais afáveis. A característica de semeadura resultou na saúde do vegetal que temos hoje. E assim ocorre com todos os atos de esperança, todos os votos depositados no futuro: a intenção de quem age e o contexto em que se dá a ação moldam aquilo que virá a ser. Ainda assim, compensa parafrasear um notório lorde inglês: Nossa flor é da pior espécie, com exceção de todas as outras flores e de todas as outras espécies. Portanto, nossa flor é a mais bela do mundo pelo simples motivo de ser nossa, do nosso povo. O caule retorcido, cravejado de espinhos, fez apontar a coroa para a direção possível: nem tanto ao alto, de forma a aproveitar melhor o sol e as brisas eventuais, nem para baixo, o que resultaria em um retorno ao solo, em desnascimento, avestruz com medo. Da cor e da textura das pétalas, que ainda se abrem preguiçosamente, pode ser dito coisa semelhante: excêntricas, inéditas. O cheiro que exala do pólen preso a seu núcleo é igualmente especial. Toda a sua constituição pode ser considerada feia justamente por ser diferente das demais? Sim, mas por que não bela por ser única? Entretanto, como dito, beleza não põe mesa, e a flor tem anseios menos estéticos do povo. Para vingar e se abrir em completude, ela pede água na medida certa e em constância regular. Precisa de intervalos de sol e sombra. Em suma, quer de nós zelo, vigília e nada mais. A flor teme, contudo, que excesso de carinho possa sufocá-la e, da mesma forma, não gostaria que alguém se martirizasse em um de seus espinhos. Ela compreende a vontade coletiva de endireitar seu destino, de instaurar, à guisa de talas e arames, o rumo de seu desabrochar. As seivas que a percorrem incutem nela o instinto de autopreservação. Por sua fragilidade jovem, sua delicadeza intrínseca, a flor exala a mensagem de que a vocação para jardinagem não é universal. Jardineiros devem existir e operar em garantia do futuro do bem natural, que é de todos. Mas tais profissionais não poderão arrogar-se a propriedade exclusiva do objeto de seu trabalho: o jardineiro é o dono da flor como qualquer outro cidadão. E, se foi este que confiou no ofício daquele, é fundamental um relacionamento respeitoso entre ambos. Um gesto mais brusco, uma só solapada, seria capaz de decepar o caule, massacrar as pétalas, ferir a razão última do esforço de todos. “Imenso trabalho nos custa a flor. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. Primavera não há mais doce, rosa tão meiga onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis”. Nossa flor, a flor do povo, é a rosa futura de todos os brasileiros.

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